sábado, 9 de setembro de 2017

Escolher

"As vezes precisamos abandonar a vida que havíamos planejado porque ja não somos mais a pessoa que fez aqueles planos"

Esse é outro daqueles textos em que me despojo do meu lado mais interessante e assumo minha mediocridade. Outra vez sinto que não tenho nada que valha a pena ser compartilhado, mas ainda assim continuo a escrever porque preciso jogar o sentimento fora. Mais do mesmo. Escolhas que não sei fazer, aquilo que não posso ter. Eu sinto que tenho tudo, mas não tenho nada. Quando foi que eu cresci? Quando foi que a minha casca se tornou apertada demais para abrigar minha alma? É surreal o que uma zona de conforto envolvida no status, poder e aceitação podem fazer. Quem sou eu no meio disso tudo? O que há de bom em mim? Qual a minha verdade, no meio de todas as ideologias que aprendi a identificar e desmontar tão agilmente? Quero sair e respirar novos ares, mas tenho medo de ser passageiro. Tenho medo de me perder, de me machucar. Mas onde estou não me sinto encontrada. Continuo sendo Ipê. E, além do mundo, devo enfrentar a mim mesma diariamente - isso é o que mais me preocupa. Quem sou eu? O que ainda deve ser presente, o que deve ficar no passado? Tenho tudo e não tenho nada. E não sei quem sou. Os sonhos vem em conta gotas, por permissão. Sinto que não estou enxergando algo. Qual ponta não amarrei? As situações se repetem... preciso renunciar, mas sou covarde.
Sou um E.T.

sexta-feira, 25 de agosto de 2017

Acho que ouvi falar...

Todo ano, desde que eu tinha uns 12 anos, minha mãe constrói um projeto com os alunos da turma dela a respeito dos ipês. O projeto consiste em acompanhar, através de observações cotidianas (casa, escolha, espaços de lazer, etc) e registros (fotos, desenhos, relatos orais), o florescer gradual dos ipês. Esse tipo de árvore, que agora substituiu o pau-brasil como símbolo do nosso país, tem um comportamento peculiar: a cor de suas pétalas determina o periodo do ano em que florescerão. Algumas cores florescem uma vez ao ano, outras duas. Mas a gente florece o tempo todo. A proposta da minha mãe, além do trabalho com meio ambiente, é vivenciar com as crianças que cada ser tem seu tempo, suas cores e potencialidades, sua maneira de ser (alto ou baixo, por exemplo). No mês de agosto, os Ipês que florescem, são os amarelos.
Pronta para fotografar, fomos caçando as árvores pela cidade dentro do nosso carro. É sempre um prazer e uma surpresa estar envolvida com projeto. Durante nossa busca, trilhando o percurso sem muita direção, me peguei pensando o quanto é engraçado como os ipês se fazem ver quando floridos. Existem um milhão deles, em lugares que cruzamos o tempo todo. Mas parece que, quando não estão floridos, são invisiveis. Interessante os ipês.
"Ainda que falassem a língua dos homens, que falassem a língua dos anjos, sem amor, eu nada seria" I Cor 13, 1. Nessa semana, Deus tem ministrado no meu coração a respeito da escuta, e eu tenho me sentido um ipê florido por dentro, ao tempo que pelado por fora. A minha futura profissão tem muito a ver com escuta. Quem não escuta não sabe responder. E eu tenho o péssimo costume de responder antes de ouvir. A fala do outro é um jogo de significado singular, muito complexo. O outro é um mundo, e a fala do outro é a janela por qual vemos esse mundo - e, portanto, carrega toda a existência dele. Quem fala, quer ser acolhido e devolvido em compreensão, não respondido.
Desde que me decidi ser inteira, me deparei com o silêncio da escuta. Esse silêncio me pareceu interessante de início, mas logo passou a ser duro. Eu pude, verdadeiramente, me debruçar sobre a questão do fazer psicologia: "a finalidade do psicólogo é a escuta". Por muito tempo, eu não entendi o que isso queria dizer, pois, se não havia resposta, para mim não havia escuta. Que surpresa a minha ao perceber que o jogo era o inverso! Quando há resposta fácil, é necessário duvidar da escuta. Quem escuta o outro, precisa se despojar de si, e isso não é fácil. Por isso que psicólogos estudam. Não é simplesmente ouvir cotidianamente, e uma forma arbitrária. A escuta psicológica é uma escuta clínica, com intenções e profunda entrega ao outro. Não se faz o tempo inteiro.
Sempre haverá o que não saberemos ouvir.
Sempre haverá o que precisaremos aprender.
O silêncio, como meio desse despojar-se, provoca. Como é difícil perceber que o outro é um ipê florido e nem sempre me chama atenção.
Quem caminha pelo silêncio, antes de ser capaz de ouvir o outro, escuta a si mesmo. Como é estranho ouvir a si mesmo e perceber-se com tantas flores... mas pelado aos olhos dos outros...!
Vejo a minha frente um longo caminho a percorrer - caminho esse sem fim aparente. Aprender a arte da escuta é mais que mergulhar no florescer do outro. É mergulhar e acompanhar-se no próprio florecer. E que enxergue quem quiser parar pra apreciar, fotografar, pra ver...

(e poucos o fazem... costumamos chamá-los de amigos).

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

O beijo do dementador

Quando eu li Harry Potter e o prisioneiro de Askaban pela primeira vez, a cena do beijo do dementador no trem foi muito marcante. Mas que aterrorizada e assustada, ela me fez sentir medo. Medo de verdade, como poucos livros na minha adolescencia me fizeram sentir. Abre parentesis. Palmas para a monstruosa habilidade de J.K. Rowling de transcrever o mundo bruxo para o papel, que convenhamos, é bem parecido com o mundo trouxa... somos trouxas mesmo, por não enxergar o que está bem na nossa frente. Fecha parentesis. Ao reler o livro algumas semanas atrás, senti o mesmo durante a leitura da cena, mas com um olhar de maturidade. Apesar de não ser exatamente expert em enxergar, consegui canalizar bem os meus sentimentos. Quando criança, eu achava que tinha medo dos dementadores porque eles eram monstros pretos horríveis que lembravam fantasmas. Daqueles que a gente fica com medo de vir puxar o pé de noite. Mas, na real, eu tinha mesmo era medo da apatia. Eu tinha medo de saber que, em algum lugar, havia um bicho que roubava de mim minhas memórias felizes e deixava tudo frio e vazio... que deixava tudo oco. Semanas atrás, quando as palavras pairavam pelo ar, eu entendi que dementadores são reais. Podem não existir como monstros feios que a gente enxerga e fica longe, mas existem dentro e fora de nós, de formas abstratas que muitas vezes deixamos passar.
Minha quartaquinta-feira durou 48 horas. Eram umas duas da tarde quando recebi uma mensagem da Mari, dizendo que sua mãe tinha falecido. Senti o coração apertar, a garganta fechar, a voz sumir. Que merda. 12 anos de luta esfumaçados em uma manhã de quarta-feira. Ser amiga da Mari me trouxe muito crescimento e muitas lições. Uma delas foi a empatia. Quando a conheci, minha avó era viva e saudável, e eu subestimava a dor da morte. E então minha avó foi embora e eu pude acompanhar as lutas da família da Mari bem de perto. A morte da minha avó ajudou a entender um pouquinho da sua dor. Que merda.
Passar uma madrugada inteira em um sofá de velório me fez tocar meus dementadores. As horas se arrastavam numa lentidão impressionante - os minutos pareciam uma goteira sem fim: ritimados, constantes, pesados.. enxendo um balde que terminaria entornando em um momento ou outro. E, foi quando a Mari se sentou bem no sofa da minha frente onde o namorado estava deitado, com os dedos finos e brancos quebrando pedaços de chocolate e levando a boca, que uma coisa queimou profundamente em mim. O remedio para o beijo do dementador era doce...
Caminhar dói e é amargo. Mas é doce quando percebemos que não estamos parados, fingindo que nada esta acontecendo, que não sentimos, que não somos humanos.... mesmo amargo, é doce.

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Deixe-mo nos amar..!

Começar esse texto está sendo um desafio. Sinto que meu ritmo de pensamento veio desacelerando consideravelmente nos últimos dias devido a nova forma que estou me permitindo viver. Mas, ainda assim, com a pressão da adaptacao a rotina batendo a minha porta sem muito tato, vez ou outra me pego surtando e refazendo mentalmente a listas de atividades do dia, hora a hora.
Tipo agora.
Mudar é dificil.
E mais difícil ainda é escolher olhar para dentro de si mesmo todos os dias, lembrando a decisão de não se render aos comandos da sua zona de conforto.
Sinto como se minha vida realmente tivesse recomeçado, não sei. Como se um ciclo muito grande tivesse se fechado. E é diferente das outras vezes (e não em intensidade, ou como se todas as outras tivessem sido iguais). Acho que o é diferente dessa vez se trata de razão, não de sentimentis. Eu escolhi de verdade sair da minha mediocridade. Além disso, também é diferente porque decidi que seria na pratica, agir de modo a não deixar que os insights permaneçam apenas na minha cabeça, e sejam tomados por minhas inseguranças internas (TOMA PORRADA LOGO, NÃO EMPACA NÃO! Ainda há muito pra viver). Talvez toda essa vibe passe daqui uns dias, uma semana, um mês.
Mas hoje não.
Hoje eu decidi.
Essa semana, conversei com muita gente  que cruzou o meu caminho. Como na aula de teatro, em um exercício de visualização bem primitivo, apenas deixei que a minha sensibilidade discernisse para mim - e não me entenda mal: sensibilidade, não sentimentalismo. Me surpreendi de tal forma com o meu eu natural... o mal não era a minha tendência, ele só cobria o que era bom, pois havia medo... e ao despojar se do medo, encontrei me em outro mundo.. há realmente um outro mundo por baixo do mundo que a gente cria.. um mundo que a gente ESCOLHE não ver, não sentir, não tocar, não querer... outros mundos...
Jesus, ao sentar com os apóstolos e partir o pão em sua última ceia, dava-se a nós por inteiro. Inclusive a Judas. E dava-se porque contemplava o pai e o sentido da vida... estar em comunhão. Visitar o mundo do outro, morar nele. Esta semana eu descobri que viver por inteiro não é só difícil porque demanda esforço interior de cultivar virtudes e equilibrar vícios. Viver por inteiro é difícil porque não se trata do que eu quero dar ao outro, mas sobre o que o OUTRO precisa receber de mim. É necessario ouvir o outro ANTES de qualquer movimento de feedback - e esse outro fala de TANTAS formas.
Pedro, ao ouvir que seu mestre lavaria seus pés, teve em um primeiro momento, um sentimento de indignidade. Como sou Pedro! Será que depois de tanto tempo andando com Jesus eu não conseguia entender? Deus era tudo porque se fazia nada. Para elevar, ele descia. Pedro precisava descer ao mundo do outro para eleva-lo, e o outro precisava descer ao seu mundo para eleva-lo. Ao lavar os pés de Pedro, Jesus o lembrou que havia sido o primeiro. E sempre o amaria primeiro.
Jon Snow, ao ser privilegiado por receber treinamento no castelo, não entendia que precisava descer aos outros para que se elevassem juntos. Tudo o que fazia era se apegar a ferida de sua própria história, que o seguia como sombra e usar como escudo. Lucio Malfoy, escondia se em sua própria alienação de controle, satisfação e poder, tão tão vazia, ao não enxergar o mundo de Dobby.
As pessoas que cruzei me demandaram muito despreendimento e verdade. E os sentimentos se moviam, muitas vezes confusos e não nomeados, e era dificil me manter firme percebendo o quanto eu estava sendo lapidada me envolvendo nas situações. A dor do parto é necessária para que haja vida. Quando damos tudo, precisamos que Jesus lave nossos pés e nos reabasteça. Precisamos de Jesus eucaristico, de Jesus nos irmãos.

Recapitulando em passagens...
1) "Ao declinar da tarde, pôs-se Jesus à mesa com os doze discípulos" Mt 26, 20
2) "Disse-lhe Pedro: Jamais me lavarás os pés!... Respondeu-lhe Jesus: Se eu não tos lavar, não terás parte comigo" Jo 13, 8
3) "Filhinhos meus, por quem de novo sinto dores de parto, até que Cristo seja formado em vós" Gl 4, 19

terça-feira, 8 de agosto de 2017

Sobre didática

Quando penso na palavra didática, o que vem a minha cabeça é a maneira como o profissional da educação enxerga seus alunos e faz com que seu conteúdo seja acessivel para eles. É a forma com que se movimenta dentro do ambiente e contexto em que está inserido no sentido de propiciar o melhor aproveitamento da turma. Na minha concepção, tem muito mais a ver com a ação sobre a subjetividade de cada aluno exercida de maneira conjunta do que com a aplicação de um conjunto de técnicas pronto como padronizador Isso não significa que não possam haver tecnicas que auxiliem o profissional, mas sim que a construção de conhecimento é algo flexível, pois vem da relação docente e discentes. Ao meu ver, um professor didático não precisa ser querido, mas eficaz, apesar de poder ser ambos. Como exemplo carrego os dois professores que mais influenciaram minha vida escolar: a professora de português, que fisgava minha atenção e contemplação com suas discussões e histórias reflexivas e o professor de matemática, que, apesar de rígido, era claro, objetivo e incentivador.
O que mais me chamou a atenção em aula foi a questão da relação da didática com o metodo/metodologia. Um professor didático, segundo entendi, deveria possuir como referência um método específico, que se identifica e se baseia (vejo metodo como sua linha de pensamento) e, a partir dele, constrói sua metodologia (aplicação prática da teoria seguida). Além disso, também fui aguçada com a questão biológica do cérebro que a professora colocou. Apesar de concordar que nossos cérebros possuem constituintes biológicos semelhantes, penso que cada ser humano desenvolve habilidades singulares, de acordo com sua interação, interesse e, principalmente necessidade. Concordo plenamente quando Libaneo propõe que a essencia do problema é a necessidade. Uma pessoa surda, por exemplo, por necessidade de se comunicar, mobiliza recursos biologicos diferentes de uma pessoa ouvinte, em prol de suprir sua necessidade - e isso faz com que o professor de uma turma cujo um dos alunos é surdo movimente e aprofunde sua ação e metodologia, ou seja, sua didática. Outro ponto que me chamou a atenção foi a questão da responsabilidade que o professor possui perante aos alunos. É sempre desejável que o professor alcance todos os alunos, mas, quando um aluno não atinge os resultados esperados, é apenas responsabilidade do professor? Atingir os resultados esperados ou não significa que o aluno não caminhou  (e por isso o professor não foi bem sucedido?). A questão é mais complexa do que parece, ao meu ver.
O que eu mais achei interessante durante a discussão foi a percepção que a conscientização da dialética - tese, antítese, síntese - deve rondar o profissional da educação. Ao meu ver, a educação está pautada na maneira como o docente se  relaciona e se aprofunda com a espiral. Quanto mais os desdobramentos de seu giro é percebido, mais apurada é sua didática.

domingo, 6 de agosto de 2017

Eu não quero me esquecer

Abrir o blog depois de tanto tempo foi uma decisão dificil. O que os olhos não veem, o coração não sente, não é mesmo? Sim. Não. O coração sente, mas a gente empurra pra baixo do tapete e recalca a coisa toda. Nossa, nesse último semestre me senti tudo, menos a Ana Beatriz. Sabe, a Ana Beatriz humana que eu costumava ser. A que ia caminhando para a faculdade, observando todos os detalhes simples. A que se encantava com histórias de desconhecidos no ônibus, a que sonhava e refletia sobre situações diversas de olhos bem abertos. A palavra que me vem é qualidade. Meus momentos já não tem qualidade como tinham antes. E antes nem tinham muito - ainda assim, eram mais frequentes. Sinto como se eu tivesse sido sugada de mim mesma aos pouquinhos, por um eu que não tinha consciencia de estar ali. As vezes, a gente quer tanto alcançar alguns objetivos que não compreende a beleza da jornada - e acaba se tornando tudo o que disse que não seria. Depois de quase um ano sem ter férias, pensei que três semanas de solidão e listas seriam tudo o que eu precisava. Me empenhei em planejar meus dias, seguir tudo a risca... Pra que? Não fiz uma coisa nem outra. Não me permiti descansar, fazer nada. E ao mesmo tempo, não me empenhei de verdade em algo que eu gostasse. Me sentia culpada por não querer fazer as atividades que havia planejado - por que eu não ia querer? eram ótimos hobbies! É que eu demorei pra entender que minhas próprias regras estavam me destruindo, fazendo com que eu me estagnasse. A rotina de acordar e necessariamente escrever no meu diário não estava me agregando como eu gostaria, meu terço e orações não eram mais autenticos. Por que? Quando o viver se torna apenas um item a ser riscado de uma lista, deixa de ser viver e passa a ser existir - basicamente desperdício de tempo e esforço.
Quando entrei de férias, eu tinha certeza que o que eu precisava era estar sozinha, que os outros é que não me deixavam descansar, curtir o belo. Mas estava enganada. Todo mundo que assiste Na Natureza Selvagem adora aquela frase "A felicidade deve ser compartilhada". Nunca foi uma das minhas partes preferidas, mas de repente ela parecia fazer todo o sentido.
Foi em uma das minhas últimas tardes que a Amanda me ligou e me chamou pra almoçar. Eu raramente tenho vontade de interagir com as pessoas, mas acabo fazendo isso por toda a carga social. Mas sei lá, a companhia dela me fez um bem muito grande. Um bem que eu já não sentia com outras pessoas, porque há tempos não enxergava outra pessoa além de mim mesma. Aparentemente, era tudo sobre mim. Eu não convivia - não estava mais disposta -, não abaixava, não aprendia, não me entregava. A simplicidade de uma amizade verdadeira, de repente me deu aquele insight de que talvez eu não estivesse vivendo a vida como eu gostaria. Na verdade, talvez eu não estivesse vivendo. Talvez só estivesse perdendo os meus dias... as listas acabavam por me prender e me controlar ao invés de me libertar e conduzir...
Engraçado que comigo, rola uma espécie de delay. As coisas acontecem, depois eu ligo os pontos. Apesar da Amanda ter sido o apse, cada pessoa que se fez presente na minha vida de alguma forma nessas três semanas me despertou para essa realidade. O pessoal do ensino médio, o ministério ruah, o pessoal do Js, do cursinho (e mesmo os amigos da psico, sem rolê), a minha própria familia.
Ainda nas minhas férias de quatro dias, assim que me livrei da necessidade de estar sempre sobre pressão por parte de mim mesma, refleti que toda a questão envolvendo qualidade estava o tempo todo me rondando (desde a minha infância) e eu tentava constantemente me convencer de que a falta dela estava relacionada aos milhares de compromissos que eu impunha para mim mesma. O ponto que eu nunca tinha chego antes - ou talvez apenas não queria admitir que havia chego - era que, na verdade, fazer tantas coisas me dava uma justificativa perfeita para conviver com meus próprios fracassos e escolhas. "Tirei nota vermelha porque eu não tive tempo para estudar", "Não falei com a fulana porque estava fazendo meu trabalho da faculdade", "Não tenho tempo para sentir ou pensar sobre esse sentimento agora porque estou ocupada demais lendo este livro". Nesse último semestre, passei tanto tempo no facebook que poderia apresenta-lo como AACC. E usar o facebook (e muitas outras coisas que faço) como fuga NÃO RETIRA DE MIM O QUE PRECISO ENFRENTAR! APENAS PRORROGA!
Ainda dói, e tudo bem.
É preciso deixar doer... é preciso se comprometer e acolher a dor... é preciso caminhar.
Com isso nao quero dizer que preciso parar de me envolver com causas e grupos, pois, mais do que nunca, sei que preciso de pessoas. Só que é necessario que haja decisão de enfrentamento da minha parte, é necessário que eu aprofunde relações ao invés de partir para as próximas, é necessário que eu escolha ficar antes de querer que alguém escolha por mim. É preciso coragem para ouvir o próprio secreto, tão detonado, tão sujo, tão.. tantas coisas. Minhas feridas, meus medos, meus fracassos... eu não quero ser um porco espinho que espeta os iguais.. ou uma tartaruga que entra dentro da propria concha e fica lá... eu quero mais.. e quero mais no simples...
Por fim, a questão do foco. De todas as minhas atividades, qual era a mais importante para mim? O que eu queria com cada uma delas? Não se trata de deixar de fazer algo, mas de ser constante com uma habilidade em especial. Eu nunca fui boa com escolhas, nunca mesmo. Mas o que era ESSENCIAL? O que estava em mim como algo NECESSÁRIO, quando eu era menor? Escrever. Sempre foi escrever. Diários nasceram de necessidade. Pandora nasceu de necessidade. E o impulsionador do problema é a necessidade. A música, o kumon, os estudos, meu servir... todas as coisas que me compõe PRECISAM vir da necessidade. Se eu precisava tanto escrever, por que eu parei? Porque o medo de não fazer bem foi maior que a necessidade de escrever. Então COMO voltar a escrever? Fazendo todos os dias, SABENDO que fracassarei, SABENDO que haverão dias em que não conseguirei sair de uma simples frase... e tudo bem. Só é necessário não parar. Eu PRECISO PRECISAR de novo da escrita. Eu PRECISO entender o esforço. Não importa quanto tempo demore, apenas continue buscando o precisar. Ao buscar o precisar, o resultado será apenas um detalhe.
Há alguns anos, se alguém contasse para a Ana Beatriz do passado o que ela teria hoje, ela provavelmente se espantaria - mesmo que talvez não ficasse surpresa. Ela conquistou muito - mesmo carregando junto dela a famigerada síndrome do impostor. Mas o que me preocula hoje, nesse momento, é: o que a Ana Beatriz do passado teria achado do que a Ana Beatriz de hoje é?
Sei a resposta e não gosto.
Trabalharei duro para mudá-la.
Desejo que a vida seja leve.

Recapitulando em passagens...
1) "Para tudo há um momento e um tempo debaixo do céu" Ecle 3,1.
2) "Seja forte e corajoso!" Js 1, 9
3) "Jesus viu-os e disse-lhes: Ide, mostrai-vos ao sacerdote. E QUANDO ELES IAM ANDANDO, ficaram curados" Lc 17, 14

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

Uma notinha bonitinha de amor: o dia em que me apaixonei por você

Eu nem me lembrava mais desse texto. Estou apaixonada por ele! Estou apaixonada por me lembrar da sensação exata que foi me descobrir apaixonada conscientemente por alguém, pela primeira vez! (Por agora, a nota mental de que chega de se apaixonar. E ainda! Nada de melhores amigos). 

17/06/2016
Quando o Joao terminou comigo e foi embora, eu nunca achei que construiria uma relação tão profunda com alguém novamente. Eu estava certa de que nunca mais conheceria uma pessoa como ele, que pudesse me fazer ver o mundo de uma forma nova ou me cuidasse com tanto carinho e amor. Me senti triste, desolada e sozinha, com um buraco enorme no peito, uma doente de amor incurável. Então escolhi entrar debaixo das cobertas e do chuveiro pra chorar, me trancar no banal, sofrer e remoer, por um loongo tempo. Vieram momentos de raiva, de ignorância, e por fim, perdão. Dois anos depois, assim que dei por finalizada a etapa da superação, me vi buscando em outras pessoas o que devia buscar em mim mesma. A nova etapa a que me propus foi a de autoconhecimento, com seus contrários, paradoxos, complicações. A primeira vista, um caminho esquisito, sinuoso, complexo, difícil.... porém, aos poucos, muitas vezes até mesmo após tempestades fortes, flores e cheiros que me invadiam de um modo peculiar e único, me envolvendo de amor e crescimento pessoal. E então, em uma reunião costumeira de amigos, me aconteceu algo que nunca (nunca, nunca, nunca) havia me acontecido antes. Nem mesmo com o Joao. Eu me dei conta, me vi consciente e entregue, a algo que há tempos já acontecia ali dentro de mim - e eu estava ocupada demais para notar. Ao olhar bem no fundo dos olhos de um certo alguém, eu me vi despida das máscaras sociais, das preocupações, dos meus medos, das minhas faltas..... eu me vi. Sem mãos suadas ou borboletas no estômago, sem indecisão ou racionalidade, sem motivo, sem neuras... sem nada. Minha alma estava nua. Ele me via além.
Eu soube.
Estava apaixonada.
Mais.
Um garoto do acaso, que sempre esteve lá. Amigo dos amigos. Só tinha se achegado, sem motivo especial, sem interesse. Alguém manso, intenso, risonho, livre.... violão, voz, filmes. Um profundidade pura e nata da nossa amizade. tumtum. Os olhos dele sorriam para mim, os momentos passavam em câmera lenta na minha cabeça... mais.. mais... quando? como? serio? por que ele? MAIS! tumtum. Quem diria?
Se seria recíproco posteriormente, não conto. Não importa. O que importa mesmo é que Joao não era único no mundo porque tinha nascido assim pra mim... como a Rosa do pequeno príncipe, Joao foi único no mundo - no MEU mundo - pelo tempo que eu lhe havia dedicado, durante anos, por inteiro. Ele continuava único existindo na nossa história, a história que escrevemos juntos, que faz parte de nós... sempre continuaria(á). O interessante foi a maneira que a vida achou de me mostrar que a unicidade do Joao não era única. O jeito de amar do Joao não era único. A maneira como Joao vivia não era única. Talvez não fosse possível conhecer alguém como o Joao porque as pessoas são únicas... umas, desejo que sejam únicas no meu mundo.
Esse alguém, na sua essência, era tudo, menos Joao.
Mesmo assim, foi nesse olhar que eu me perdi.
"Isso é que é boa música eletrônica, Ana" ele diz. Eu sorrio, boba, e desvio o olhar para pegar um copo de refrigerante.
Ajo estranhamente a noite toda.

Ninguém nota nada. 

O Espírito Natalino e essas coisas..

Por muitos anos eu tentei me convencer de que o natal era um dia feliz e especial. Ainda assim, mesmo quando eu era pequena, com toda aquela comida extremamente convidativa que a minha avó preparava e todos aqueles presentes debaixo da árvore, tão numerosos e coloridos, bem lá no fundo, tudo o que eu conseguia sentir era um grande vazio. Ele era constante em sua inconstância, específico da data, como as luzes de decoração... liga, desliga, liga, desliga... mas sempre lá. Ano após ano durante essa época, as pessoas que me cercavam, de repente, ficavam envoltas pelo misterioso Espirito de Natal. Mas não eu. Por quê?  
Eu era cristã. Queria que Jesus nascesse na minha família e no meu coração novamente. O ano estava no fim, era quase reveillon - vida nova, metas novas, dias zerados. Eu tinha um bom repertório de filmes natalinos. (De qualidade duvidosa? Talvez, mas ainda natalinos). Rudolf, a rena de nariz vermelho. Os fantasmas de Scrooge, Meu papai não é noel. Mais recentemente, A felicidade não se compra.
Então por quê?
Há alguns natais, em uma das brechas de luz do meu vazio existencial, eu entendi que o único sentimento que talvez me fosse concedido que lembrasse o Espirito de Natal fosse aquele alívio de fim de dia, quando eu agradecia a Deus pela minha família, amigos e pela comida maravilhosa que eu teria por uma semana inteira. É, só isso mesmo. Não precisava ter um porquê. Talvez eu pudesse só acolher as sensações e odiar o natal.









Dia 23/12/2016, na mesa de jantar. Pai, mãe, eu. Uma briga de casal algumas horas antes.  Promessas que nunca seriam cumpridas da parte dela, palavras mais pontudas que punhal da parte dele. Meu silêncio valendo minha vida.
"Eu entendi sua dor durante ANOS!" dizia ela, ferida. "Você não pode entender a minha por alguns meses?! Qual o seu problema em passar o natal com a minha família?!"
Rosto vermelho, irritado. 
"Eu odeio o natal" Tum-Tum.  Liga, desliga. Tum-Tum. "Quatro dias antes... ele morreu". 





Uma lembrança antiga. 







Pai, eu também odeio o natal. 






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Não esse ano. 
Eu não quero mais sofrer as dores dos outros. 
Eu posso estar lá - e vou. 
Apenas isso. 
Um mês de comunhão diária. 

Eu finalmente sinto o Espírito Natalino. 

terça-feira, 29 de novembro de 2016

O grande irmão

Resultado de imagem para o grande irmãoA transubstanciação me parece um momento atemporal, às vezes. Eu estou frente a frente com Jesus eucarístico, meu coração dá indícios de que vai explodir. Tudo a minha volta parece um grande nada perto da grandeza dele. Um grande nada tão grande, que mais nada importa. Desejo passar a vida toda prostrada. Então eu cruzo as portas da igreja e sinto um choque térmico. Enquanto isso, na aula de história da Educação, escuto críticas à Escola Nova (que tanto amo) e me sinto um peixe fora d'água no abismo do meio científico anarco-socialista. Detesto o senso comum. Seja-você-mesmo, você-é-livre, você-pode-ser-o-que-quiser. Não me identifico mais com revoluções. Não quero mais a violência Marxista da tomada de poder da classe proletária. "Mas qual suas tendências políticas e econômicas mesmo, Ab?". A pergunta ressoa dentro de mim, eu oscilo nas respostas que me dou. 
Sou adulta.
No acampamento, tenho impressões estranhas. Estou inserida na cultura do agora, na cultura dos cliques, na cultura da ansiedade. Estou sempre em frenesi. Muitas vezes, mesmo com sono, quando deito minha cabeça no travesseiro, fico pulando de uma rede social para outra, sem rumo ou objetivo real. Antes eu sonhava. Agora, curto, comento, compartilho. Agora também amo através de cliques. Perdi a noção de como era antes, do que poderia ser depois. 
"2 + 2 = 5".
 Acho que estou aprendendo a duplipensar. 
Não quero mais escrever histórias longas. Não quero nem mais escrever histórias. As ideias vem e vão tão rápido que não consigo mais capturá-las e registrá-las. Excelente cursar duas faculdades, hm? Em meio às burocracias, copio EDs. Os livros que eu costumava ler não ficam mais ao meu alcance no ônibus. Quase meio ano sem abrir o Blog. Sou pinóquio as avessas, engessado. 
Eu rezo um terço. Sou toda dela. Me sinto profundamente amada, é quase reconfortante. Sinto raiva das misérias humanas. Eu rezo mais. Rezar conforta meu coração - de acordo com a fenomenologia, acreditar que algo existe já o torna existente. 
Torço para que Ele esteja mesmo aqui.  
O amor da minha vida me espera exasperado em algum canto do mundo, dentro do nosso trailer imaginário, enquanto eu componho na esperança de que meu grito abafado chegue até ele. Estou esperando.
"Quem você queria que estivesse em seu lugar, Winston?"
Perco o foco. 
Eu amo o Grande Irmão. 

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Uma carta para o amor da minha vida

São quatro da manhã de uma terça-feira de dezembro. Eu ainda nao estou de férias porque minha faculdade saiu de greve recentemente. Eu acabei de ser rejeitada pelo menino que eu gosto, que provavelmente não é você. Isso parece bom, mais do que deveria, porque estou livre novamente. Eu quero te encontrar.
Eu comecei aquela coisa de espera, mas descobri que eu sou pior do que eu pensava. Faz so um mês. Eu sinto que não consigo fazer isso.
Você é muito abstrato. Mesmo que eu escreva músicas pra voce, ou que tenha uma lista de características... eu não te conheço. Eu nao sei seu nome, se você já existe pra mim. Isso é frustrante. Minha bolha me machuca cada vez mais.
Eu nao entendo os planos de Deus. Eu nao sou boa em renunciar a mim mesma. Será que em algum lugar você também renúncia a si mesmo por mim?
Com um mes de espera, Deus fez com que eu tivesse "a conversa" com o Lucas. Com que tudo fosse esclarecido, para que eu pudesse me concentrar em voce. Em como ele queria que a gente desse certo, que fossemos um do outro, mesmo agora. De certa forma, foi exatamente como eu pedi... ainda bem. Renunciar o Lucas teria sido a coisa mais difícil de toda a minha vida.
Me desculpe por ainda não te amar.