quarta-feira, 26 de agosto de 2026

sa ber - parte 2

Hoje, retorno ao sabor de dois dos meus antigos laços. doces, mas que com a ausência se tornaram amargos. escrever sobre eles permitirá que eu retorne ao doce?

iuri tinha muito em comum com meu avô. ele era tranquilo e observador. vivia a vida no próprio ritmo. tinha interesses pessoais bem delimitados e seus próprios rituais. gostava de música e de arte num geral. gostava de saber das coisas. os dois me convidavam à profundidade, a companhia, e eu não conseguia aceitar o convite, apenas me sentava diante do mar que eram e, da areia, contemplava. 

"Quando eu entendi do que a poeta falava, eu pensei: que sabores minhas guerras tiraram de mim? Mas agora entendo que a pergunta é diferente da pergunta da Marina: que sabores eu nunca senti e gostaria?"

Agora entendo que as duas perguntas faziam parte de um mesmo todo. Minhas guerras me deram traumas, assim como deram ao povo espanhol durante a guerra civil. me fizeram em pedaços. me vejo dentro do quadro de picasso, todo recordado e fragmentado. e esse trauma, em muitos momentos, me faziam ficar na areia ao invés de ir para o mar. 

o eu lírico do poema era mais corajoso: se jogou ao mar. e, para sua surpresa, encontrou água de rio, um curso. não um lugar a se perder. 

existem vários caminhos dentro de uma relação, não apenas o que leva a loucura. existe também um caminho que dá corpo. era esse que eu tinha mais medo de encontrar, mas, ao mesmo tempo, aquele que eu mais ansiava. 

meu avô me deixava explorar suas portas fechadas, e eu não sei se havia pretensão em abrí-las. nosso laço era firmado nisso: eu gostava de olhar as portas de longe, ele não fazia questão de abrir e eu as sentia como portas abertas. mas não pude deixar de sentir que não o conhecia de verdade, quando ele morreu. havia tanto pra perguntar, tanto pra conhecer, tanto para saber. e eu nunca soube

iuri também mantinha as portas fechadas, mas, em determinado ponto de nossa relação, estava disposto a abrí-las. eu não conseguia enxergar nenhuma porta, muito menos que estavam fechadas. só sentia um grande afastamento e proteção. mas ele escolheu mediar. e mediar pra mim primeiro. 

a sensação era de encantamento e medo. meu deus, quanta coisa eu tinha pra ver. meu deus, o que ia encontrar atrás de cada porta? meu deus existiam mundos, mil possibilidades que eu não estava acessando! eu conseguia acessar? eu podia acessar? aquele lugar era meu? tinha alguém me oferecendo aquele lugar? 

'Ele quis que eu fosse a primeira pessoa pra quem ele mediaria'. 

e o fato de que outras pessoas entrariam por aquelas portas, veriam o que ele queria me mostrar. e se eu gostasse muito? e se em algum momento ele resolvesse fechar? e se alguém fosse mais rápido pra ver, conseguisse ver melhor? e se eu não pudesse entregar um bonito olhar? 

"Eu achei que essa seria a coisa mais especial que eu poderia receber dele naquele momento, pois gosto de me sentir a primeira. Como todas as outras que já visitei, a exposição tinha vários setores, cada um sobre uma obra e um artista. Ocupavam pouco espaço, e as explicações eram curtas. Estávamos envergonhados por aquela empreitada: ele se mostrando e eu o aplaudindo. Mesmo assim, conforme o Iuri me contava sobre algo que ele tinha aprendido, eu percebia que ouvir aquelas palavras não era me apropriar de um saber, mas abrir uma porta. Tipo no Monstros S.A. Cada setor da exposição era uma porta para um universo e eu ainda estava do lado de fora"

o iuri me machucou. ele não sabia muito bem como convidar pra entrar. tinham regras demais pra passar, de um lugar pra outro lugar. e eu não fui cuidadosa. tinha medo de errar, de machucar. não sabia lidar com tantos espaços, me faltavam palavras.  "Quantas portas eu não abri?" por medo de não sustentar. Agora eu entendo porque me acostumei a te olhar como uma porta fechada. "Eu sinto tanto medo de abrir que chego a desejar que o ápice do meu encontro com você seja uma porta fechada, compondo uma pequena sessão na exposição da minha vida". E se suas portas forem tão impactantes que eu acabe me perdendo do pouco de mim que ainda tenho controle? "E se eu te beijar e eu sentir o sabor do sal, da água, do rio, do mar, das cores, do amor..." e outros sabores mais que eu nem sei nomear? 

percebo que agora estou pronta pra sustentar. desejo abrir portas, encontrar um rio, um mar. não quero que o encaixe seja mais com a porta fechada, quero caminhar pela areia, sentir ela em contato com a minha pele, sentir a água chegando, sentir meu corpo sendo engolido pela água, e me ver nadando.... 

e minhas portas? quero que abram. quem quiser abrir, que abra. que veja, que contemple, que mude os móveis de lugar. e se der tudo errado, já diria cícero: "entra pra ver como você deixou o lugar e o tempo que levou pra arrumar aquela gaveta, entra pra ver, mas tira o sapato pra entrar, cuidado que eu mudei de lugar algumas certezas". eu quero alterar a dinâmica, quero repetir diferente. 

e daí se demorar pra abrir a porta? voce ficará tempo suficiente? você quer saborear? ou você só quer saber? ainda preciso de tempo. mas talvez agora não pare só no tempo. 

com meu avô, talvez as portas estivessem mesmo abertas. eu nunca vou saber. nunca vi. não quis perguntar. quis, mas tive medo. preferi a areia. não suportei a abertura. agora quero suportar. s(aber). ver a (aber)tura. entrar. morar. 

que saiam de portas, vida. cores e sabores. e o que mais seja que eu nem imagine.

"Como encontrar isso em alguém de novo?" que eu me relacione com os buracos. que eu ache as portas, que eu queira abrí-las, que eu queria me molhar. desejo, desejo, aposto, aposto, amo, amo. 

que essa ex-posição, se desfragmente. que se torne uma nova exposição. com seus riscos e belezas. 

domingo, 23 de agosto de 2026

sa ber - parte 1

há quase dois anos, publiquei um texto chamado "por amor as causas perdidas", em que falava sobre luto a partir de um poema. ele falava sobre como eu me sentia a respeito do rompimento do meu último relacionamento amoroso nomeado como namoro e também sobre como eu me sentia em relação à morte do meu avô. 

eis o poema, retomado em agosto, a-gosto, de marina romero, poetisa do exílio espanhol: 

no me sabe tu besar... 

no me sabe tu besar

a sal ni a mar

que desvario! 

que me sabe tu besar

a agua de rio!

no me sabe tu mirar

ni azul ni rojo

amarillo 

el sabor de tus ojos, 

y es el son de tu cantar 

no me sabe tu besar 

tu cantar ni tu mirar 

a mareo em alta mar. 

no meu texto antigo, eu discorri sobre uma posição que agora era ex, que não era mais aquela que eu ocupava e sobre o quanto me doía apenas perceber essa posição quando ela já não mais existia. hoje eu retomo o texto ainda para falar de dois lutos, e tentar, finalmente, encerrar os quatro. 

em setembro de 2025, eu conheci um casal, sabrina e letícia. elas me adotaram como filha sáfica delas, no dia exato do início da primavera, dia em que, na minha fantasia neurótica, eu gostaria de me casar. fazia exatamente um ano que tinha rompido com o iuri e tinha vivido a morte do meu avô. 

na manhã do dia 2 de janeiro de 2026, eu acordei cedo e me preparei para passar o dia com elas. tínhamos vivido um ano novo inesquecível. elas sairíam para almoçar e comemorar a própria relação, mas resolveram me convidar. 

eu e sabrina estávamos encontrando dificuldade de acessar a linguagem uma da outra. apesar disso, eu e letícia estávamos nos comunicando bem. pouco antes de ir ao encontro delas, senti vontade de fazer um presente manual para sabrina. separei uma cartela de adesivos edição de colecionador de uma banda que gostávamos que eu carinhosamente guardava na minha caixa de memórias por anos e resolvi entregar pra ela. era uma pequena revista, então escrevi algumas músicas que me lembravam ela e coloquei entre as páginas. entre elas, havia, minha revolução, de diego gonzález, enigma, de iago o próprio e o poema de marina romero. 

eu não sabia o que estava dizendo ainda, mas tinha muito a dizer. 

me lembro de ter em mente que precisava chegar as 11h. eu sempre estava chegando atrasada nos nossos encontros e esse era um comportamento que desregulava o modo de se organizar de sabrina. neste dia, fiquei muito atenta a hora, para não me atrasar. eu estava quase me atrasando, mas precisava terminar o presente. consegui. 

quando cheguei ao apartamento delas, quem desceu para me receber foi a sabrina. eram 11h05. eu disse: oi, desculpe o atraso. e ela disse: que atraso? eu disse: não era as 11h? ela disse: não, era as 11h30. você está adiantada. e eu fiquei absurdamente surpresa com aquele dado. eu tinha enganado meu próprio cérebro pra não chegar atrasada colocando na minha mente um horário mais cedo porque eu sabia que por mais que eu tentasse não me atrasar, provavelmente me atrasaria. essa é uma técnica que uso de forma consciente desde adolescente, e, dessa vez, tinha feito um movimento inconsciente. refleti, comigo mesma, em um sorrisinho bobo: eu amo a sabrina. 

eu amo - e ainda é amo, pois meu amor não mudou -, a sabrina e a letícia com a mesma intensidade. o tamanho do meu amor é e sempre foi o mesmo. mas, para a sabrina, eu amava só a letícia. tive essa percepção enquanto subíamos no elevador. foi por isso que, naquele dia, eu quis fazer um presente pra ela. para demonstrar que o meu amor por ela existia e era tão grande e sólido como o meu amor pela letícia. 

quando cheguei, letícia ainda estava se arrumando, então fiquei brincando com as cachorrinhas. nem percebi quando a sabrina abriu o presente. perguntei: você não vai abrir e ler? ela respondeu: já li. sempre cinco movimentos a frente, a sabrina, no nosso jogo de xadrez. mas não entendi nada, completou. você pode me explicar o poema. 

a única coisa que eu soube dizer foi: eu te associo com o verbo saber, porque você gosta muito de saber das coisas. e, em espanhol, o verbo saber tem dois significados. o primeiro, é igual o português, conhecer. o segundo, é diferente, significa saborear. e esse poema brinca com isso. ela queria saber mais, como era esperado. mas eu não sabia entregar mais, então não entreguei. e fiquei me sentindo boba. 

esse dia, foi um dos mais especiais da minha vida, como outros que vivi com sabrina e letícia. nós almoçamos no ariga, e eu pude provar uma culinária fantástica, que mudou radicalmente meu jeito de ver o mundo, pois letícia foi nomeando os sabores de todos os elementos que provávamos e que ela conseguia identificar e eu provei o prato favorito da sabrina; e fomos a um sebo que sabrina gostava, onde ganhei uma hq dela, do pequeno príncipe. ela que escolheu e me deu. era o último da coleção e falava sobre viagem no tempo. sou toda reversa e, temos em comum o interesse por obras que falem sobre viagens no tempo. 

nossa relação, sem nome, terminou. a relação dela e da letícia, um namoro de quase quatro anos, também. eu e a não monogamia contribuímos bastante pra isso. esse é o luto de que falo agora. eis que, relendo meus textos do blog, me deparo novamente com o poema e resolvo pedir a ajuda do chat gpt para interpretá-lo. 

segundo o chat, esse poema é muito interessante porque trabalha o amor e o desejo por meio de uma inversão do imaginário marítimo. chat apontou um dos meus maiores significantes como central, o mar. e continuou: em vez de o beijo, o olhar e o canto produzirem vertigem, profundidade ou embriaguez, eles são comparados a coisas que não conseguem produzir o efeito esperado. Há uma espécie de desencontro entre aquilo que o eu lírico espera sentir e aquilo que o outro efetivamente provoca.

essa definição me ajudou a entender minha dificuldade de comunicação com a sabrina. eu nunca tinha conhecido alguém como ela, por isso, não sabia o que esperar receber dela, e por isso, tinha medo de aprofundar nosso laço. 

o beijo, no poema, não tinha gosto de mar, tinha gosto de rio. e o rio é apresentado pela palavra desvario, que é uma palavra do campo semântico da loucura. então, não só sabrina não estava no meu escopo marítimo como sua água existia para mim e era uma outra coisa: uma experiência de rio. segundo o chat: o mar é vasto e aparentemente sem direção; o rio, embora também possa ser enorme, é marcado por um curso, por margens, por um caminho. o beijo, portanto, não provoca a vertigem do alto-mar. ele conduz a um fluxo. 

sabrina pega mãos quando ama alguém. e conduz. e ela fez isso comigo também, timidamente. 

e então entram as cores. 

o beijo também não tinha gosto de nenhuma cor. 

cores para mim são muito importante, perpassam a forma como eu vejo o outro. e sabrina não emanava cor nenhuma, apesar de eu ver nuances de vermelho e verde nelas. mas eram cores diferentes das que eu estava acostumada. 

além disso, o poema escolhe cores extremamente específicas: azul, vermelho e amarelo. o azul, era uma cor dolorida para sabrina e letícia, lembrava uma ex de sabrina. letícia tinha um azul intenso, mas ainda não conseguia ver, e sinto que consegui contribuir para ele de alguma forma. o vermelho, era como sabrina se apresentava e aparecia para mim, o verde, como ela se apresentava e aparecia para a letícia. e o amarelo? eu ainda não tinha uma persona amarela, quem me ofereceu foi o francisco, mas quem deu estrutura pra ela surgir foi a sabrina. mesmo assim, o beijo não era amarelo também. 

a negação é um elemento que sempre aparece na minha análise. antes de eu assumir muitas coisas pra mim e poder criar uma síntese delas, elas aparecem em forma de negativa. exemplos clássicos: não binário, não monogâmico. 

o não, também é o símbolo da castração. o não do pai é o que permite a entrada do sujeito na linguagem. o não poder, não acessar, o não saber. 

e então entra o cantar 

o beijo também não tem sabor do canto. 

neste momento do poema, ele destoa da minha experiência com a sabrina. foi através do cantar dela que houve um sim, uma conexão, um investimento. foi aí que a triangulação de fato começou a ocorrer, pois o não desapareceu. ela cantou pra mim e me puxou pela mão. 

o poema termina dizendo que o beijo não causou náusea, como esperado. causou o que, então? ele entregou o fluxo do rio. segundo o chat: o eu lírico parece procurar no outro aquilo que seria a experiência amorosa convencional: o mar, a vertigem, a embriaguez, o desvario. mas não encontra. o beijo não dá “mareo de alta mar”. ele dá água de rio. assim, talvez o poema esteja dizendo algo como: eu esperava me perder em você como quem se perde no mar, mas você não me oferece esse tipo de vertigem; você me oferece outra coisa, mais doce, mais terrestre, mais contínua. e isso também torna o título implícito do poema — se não houver um título além dos versos que você trouxe — quase uma questão sobre o que significa “saber” alguém. o verbo saber em espanhol significa “saber”, mas “me sabe” aqui é literalmente “tem gosto para mim”. o conhecimento do outro passa pelo paladar. ou seja: conhecer alguém é prová-lo.

aí o chat discorre sobre o desvario: isso aproxima o poema de uma tradição lírica em que amor e loucura se tocam. Mas o interessante é que a loucura aqui não vem necessariamente da intensidade. Ela vem da incapacidade de nomear a experiência.

O eu lírico sabe dizer o que o beijo não é:

não é sal,
não é mar,
não é azul,
não é vermelho,
não é amarelo,
não é mareio.

mas tem dificuldade de dizer exatamente o que ele é. a única definição positiva é: “agua de río”

então o poema inteiro pode ser entendido como uma tentativa de nomear uma experiência amorosa que escapa às categorias tradicionais

o poema ainda conversa com o contexto do exílio espanhol, deixando ele mais forte. segundo o chat: há uma tensão muito produtiva entre pertencimento e deslocamento. o mar, nesse horizonte histórico, não é apenas uma paisagem romântica — pode carregar também a ideia de distância, separação, travessia e exílio. nesse sentido, escolher o rio em vez do mar pode adquirir uma ressonância ainda mais interessante: o rio também é deslocamento, mas é um deslocamento com curso, margens e continuidade. por isso, eu leria o poema menos como “o beijo não é suficientemente apaixonado” e mais como: o eu lírico esperava uma experiência de vertigem e encontra uma experiência de fluxo. o outro não é o alto-mar que faz perder o chão. e o rio que leva consigo.

sinto muita vontade de contar pra elas tudo o que descobri, mas não posso. já não temos um laço. isso tem a ver com o luto. quantas vezes não quis contar coisas pro iuri e pro meu avô e não pude? eu diria: sabe aquele poema que eu não sabia interpretar? agora eu sei! e é IN CRÍ VEL SABER! amo o sa ber, pois ele passou pelo não sa ber, como todas as minhas afirmativas passam pelas minhas negativas. te 

sinto muita vontade de contar pra elas tudo o que descobri, mas não posso. já não temos um laço. 

ainda assim...

levo comigo, sabrina. 

também te levo comigo, letícia. 

obrigado pela jornada. 

"Às vezes eu tenho essa coisa de não saber saborear as coisas de primeira. As vezes elas passam por mim e eu nem me dou conta do quanto são importantes até que eu tenha perdido a chance de saboreá-las. E perco os significados que mais me alcançariam. Significados que mexem com meus sentidos: a visão, a audição, o olfato, o tato... e o paladar. Quando eu entendi do que a poeta falava, eu pensei: que sabores minhas guerras tiraram de mim?. Mas agora entendo que a pergunta é diferente da pergunta da Marina: que sabores eu nunca senti e gostaria? Às vezes eu perco a chance de saborear".

sexta-feira, 7 de agosto de 2026

A lista: a-ber-tu... ra!

em mania, me reaproximei de muitas pessoas do meu passado - assim como também conheci muitas pessoas novas. no meio de tantas reaproximações, uma das minhas amigas de infância decidiu fazer justamente o contrário: se afastar. segundo ela, nossa amizade não era profunda. ela não podia contar com nosso grupo quando precisava e não sentia nossa presença ao seu lado. 

quando ela se afastou, senti uma profunda tristeza: como se eu tivesse perdido algo seguro. algo em que investi. 

tentei ir atrás dela, mas ela estava profundamente fechada. como assim ela não queria mais minha amizade? me lembrei de um filme que assisti: os banshees de inisherin, sobre dois amigos que eram muito próximos. um dia, um deles decide que não quer mais essa amizade e, sem comunicar nada, se afasta. quando o outro amigo tenta entender o porque, ele o intima: cada vez que você vier falar comigo, irei cortar um de meus dedos. o conflito dramático se aprofunda quando nos é dito que o amigo que cortou relações é um musico apaixonado. ele toca violino e, se cortar seus dedos, não poderá mais tocar. vemos, um a um, seus dedos serem decepados a cada tentiva de aproximação do seu amigo. 

toda vez que tenho uma negativa de alguém, me sinto muito atacado. não tinha parado pra perceber esse tipo de coisa antes, até me relacionar com mulheres e elas me odiarem e quererem ir embora. felizmente, com sabrina e letícia, aprendi que não é não - e não importa um motivo. se alguém não quer ficar, deve ir. a última coisa que quero é fazer uma pessoa cortar seus próprios dedos. 

bom, eu deixei as coisas esfriarem com a bia, essa minha amiga, e fui atrás dela de novo, antes de aprender sobre não. o tempo fez alguma coisa por mim e ela deu abertura. trocamos muita ideia. muita mesmo. acho que nunca tínhamos trocado tanta ideia. e aí, conversando com ela eu entendi que nossas realidades agora eram completamente diferentes mesmo. e entendi uma dinâmica muito interessante minha: a de tamponamento da falta. 

sou neurótica. apesar de duvidar disso constantemente, principalmente agora pelo lance dos delírios, sei que sou pois duvido de mim e das minhas narrativas e psicóticos não fazem isso. sempre fui vista pelos outros como uma pessoa bondosa, carismática e abundante. e, falando em análise sobre como essa visão é marcada socialmente nos meus aniversários, pois sempre acho um jeito de entregar algo de mim para o outro, descobri que, na verdade, entrego porque existir me angustia, e meu aniversário me lembra que eu existo e que por isso sou um poço de angustia. quando me deparo com uma angústia minha, eu gero um produto, normalmente artístico, para entregar ao outro. é como a casquinha de algo frito: uma emulação de um croc que, sem fritar, é só farinha solta e sem graça. então eu frito e eu ofereço pro outro um tamponamento de uma falta alheia quando não consigo lidar com as minhas próprias faltas. isso faz com que o olhar se desvie das minhas faltas para a ação de tamponar a falta do outro. ele come frito e eu como cru. profundamente neurótico. 

me angustia muito a sensação de perda. estou começando a conseguir lidar com ela agora, mas tem sido difícil. foco sempre na falta, no que perco se perder e não no espaço que se abre para um movimento que me permitirá, muito provavelmente, ganhar outras coisas, espaços, momentos. quando bia se afastou, eu pude entender que, nos meus laços, meu medo de perder é tão gigante, que eu não consigo me aprofundar, pois, ao me aprofundar, tenho medo de encontrar questões que não conseguirei sustentar, por conta das minhas faltas, e perder o que já conquistei. e aí a relação vai se desgastando e desgastando até ficar insalubre. 

não dá pra desviar das faltas. 

faz pouco mais de duas semanas que estou namorando um homem. há pouco tempo atrás escrevi um texto chamado fechamento, mas a palavra que estava em meu coração era abertura. eu estava resistente. desde meu último relacionamento com um homem, eu achei que não me relacionaria mais com essa espécie de ser humano. por alguns meses de 2025, me considerei uma mulher lésbica. até reencontrar o francisco. 

estudei com francisco quase toda minha infância. ele era o melhor amigo do meu melhor amigo. igual na musica do jquest, ele me achava meio esquisito e eu achava ele muito chato. mas a vida tem dessas. por algum motivo, a vida nos reaproximou. 

como toda mulher, fui criada para buscar um marido. quando eu era cristã, um costume entre as mulheres da comunidade que eu fazia parte era o de fazer uma lista com características que buscava no parceiro ideal. a proposta era pensar sobre seus princípios e escrever em forma de lista uma oração, para que deus colocasse uma pessoa daquele jeito no seu caminho. eu já perdi as contas de quantas vezes eu fiz uma lista assim. aqui no blog mesmo tem inúmeras. 

eu, e ouso dizer que a maioria das mulheres que era submetida a essa proposta, sempre pulava a parte dos princípios e só listava a parte do desejo. o que eu quero em um parceiro é.... bla bla bla... por muitos anos foi assim. isso acontece porque não somos ensinadas a olhar pra nossas faltas. o que falta em mim que o outro pode me ajudar a construir? o que falta em mim e por isso desejo? 

o francisco é meu namorado porque foi a primeira pessoa, de tantas que eu gostei e comuniquei meu amor (e mais outras tantas que eu gostei e não comuniquei meu amor) que reinvindicou um nome para o nosso laço. ao fazer isso, reinvindicou percorrer comigo o caminho de me ajudar a olhar e sustentar minhas faltas. 

o francisco é muito bom em se comunicar. ele é muito cru e direto e esse jeito me convida, muito intensamente, a me entregar, ainda que eu tenha medo de me mostrar e, com isso, mostrar minhas faltas, ser vista e perder. com ele, porém, essas percas, esses lutos, são ganhos. amar é faltar. amar é poder faltar. é perder, pra ganhar. é poder estar em dívida com o outro: dívida de melhorar como pessoa, dívida de respeitar e ser leal ao outro, dívida de crescer em maturidade e me tornar cada vez mais adulta. 

o francisco tem me ensinado que minhas faltas direcionam meu olhar para aquilo que eu ainda posso aprender. e, nesse percurso, entender o que eu experimento e lugares que ocupo nomeando o que eu gosto ou não. junto com ele. pelo tempo que quisermos sustentar esse investimento. 

bia me feriu porque ao invés de investir mais em mim (acho que não sabia como), apenas se retirou. 

em mania, transgredi muito do que eu achava ser princípio pra mim. mas, na verdade, eram só um monte de palavras colocadas sobre mim. é só transgredindo regras que é possível construir princípios. algo de precioso ficou desta vivência: a culpa cristã não é culpa de desagradar uma entidade espiritual, é culpa de transgredir a castração que nos é imposta pela linguagem e, assim, extinguir nossa existência. mas a existência não pode ser extinguida pela transgressão, pelo contrário, ela é, muitas vezes, extinguida, pela completude da fantasia neurótica. 

a lista, portanto, não existe. o que existe é uma abertura para construir. 

sexta-feira, 24 de julho de 2026

para amar é preciso abrir espaço no corpo

chegou o tempo do investimento. não apenas do texto do investimento, mas de investir. 

investir é um termo engraçado. pode ser usado pra falar de dinheiro e negócios e também pode ser usado na psicanálise. 

pra Freud a gente tem uma energia no corpo chamada libido que direcionamos pra fazer coisas, tipo viver. ele chama esse direcionamento de investimento. 

na última semana, depois de quase dois anos em mania, recebi o diagnóstico de bipolaridade tipo I. muitas coisas me foram explicadas pelo termo investimento. na depressão, o investimento da libido é no próprio eu. há uma clausura. buscamos o mood da carta do heremita do tarot, mas só encontramos abismo. já a mania é a libido investida no mundo. uma explosão de investimento externo. buscamos o mood da carta do louco, mas só encontramos abismo. 

meu investimento agora busca a carta da temperança. o orobouros. 

uma trança desfez-se. 

é fim de julho e eu me alegro ao perceber que várias das minha metas já foram cumpridas. foram metas sinceras, afinal. e eu pude me acompanhar vivendo cada uma delas. e tudo bem que faltam metas. ainda bem que faltam. 

minha prima lançou um livro. nunca me senti tão feliz. primeiro fiquei com inveja, mas depois fiquei feliz. genuinamente. há algum tempo eu sentia que me faltavam palavras e buscava palavras nos outros. muitas mulheres da minha vida me deram palavras. e minha prima deu palavras ao mundo. onde estão as minhas? tenho sentido vontade de escrever.

após um shutdown dentro de um episódio de mania e uma crise não verbal, eis agora eu, Be do futuro, descobrindo que eu ainda tenho palavras. as palavras estão dentro, só precisavam de uma injeção de libido para saírem. uma abertura, qualquer que fosse. não um fechamento, minha conhecida técnica de repetição e gozo. 

investir e sustentar são um par dialético. não é uma nem outra.  na medida que eu sustento, eu invisto. 

tenho sentido vontade de escrever. percebo agora, o quanto as palavras me ajudaram a construir o meu corpo. para amar mulheres é preciso abrir espaço no corpo. para amar pessoas é preciso abrir espaço no corpo. para amar a si mesmo é preciso abrir espaço no corpo. 

o que é um escritor? é aquele que cria com as palavras. um corpo. uma realidade. um mundo.  

a significação custa. a castração, saber que algo me falta. 

tenho medo de estruturar ideias, elaborar pensamentos e os sentidos fugirem das palavras. alguns escritores chamam momentos de escrita de inspiração. eu entendo perfeitamente o que quer dizer isso, agora. mas o que resta depois da inspiração? o ar? 

eu escolho reparar e não me assusto. corro o risco de perder o que tão dificilmente capturei? 

decido regar minha semente. será que ela germinará? que tipo de flores e frutos me oferecerá? será que as raízes são fortes o suficiente? 

sábado, 30 de maio de 2026

fechamento

 hoje eu me fecho para todas as relações que eu um dia quis ter. 


desde que saí da igreja, eu escolhi viver de peito aberto. 


sempre tive essa questão forte com auto proteção, estive me protegendo do mundo. ainda que houvesse alguma espontaneidade em mim, eu sempre me protegi. a igreja me dava esse lugar de proteção. 


aí eu resolvi que deveria viver o que eu não tinha vivido. que eu tinha esse direito. 


agora, só consigo olhar pra mim como um punhado de cacos de vidro. todas aquelas partes que um dia foram minhas personalidades, que eram grudadas meio que por durex, simplesmente se esparramaram. 


não acho que vão voltar a se unir. 


não sou uma pessoa, não existo. 


estarei habitando esse planeta com meu corpo oco, um casulo de borboleta abandonado, sobrevivendo até que chegue o momento que o casulo se decomponha. 


aguardo esse momento esperançosamente. 

terça-feira, 26 de maio de 2026

agora eu fico

 faz oito anos que não escrevo pra você. não sei mais se você existe, mas quero acreditar que sim. meu amor tranquilo, minha melhor vista, minha rosa. 


tenho vivido tantas coisas novas. hoje me peguei pensando no quanto gostaria de te contar. aí depois pensei que nem precisaria. gosto de pensar que a gente vai se entender no silêncio. 


estou cansado de atirar pra todo lado. gosto de ver isso como um lazer, uma distração. mas no fundo, só queria compartilhar minha vida com alguém. meu alguém. anseio por te escolher. e anseio que você me escolha. 


infantil, neurótico e clichê. alguém que anseie ser dois. alguém que me veja como sujeito e escolha ficar. alguém que me reivindique. que queira ser sujeito do meu lado. que queira compartilhar uma vida simples ao meu lado, sem muitas regalias. alguém que tome café com cigarro comigo nas primeiras horas do dia. alguém que seja minha melhor vista. alguém que nomeie nosso laço. 


te espero pacientemente, com o coração ainda aberto, mesmo que tão ferido. mas um coração cauteloso, a espera de sinais. 


já sei que imaginar um amor perfeito é fantasia. mas eu nunca quis um amor perfeito, afinal. só quis um amor que ficasse. 


agora fico. comigo mesmo. até que a vida te coloque no meu caminho e eu saiba que é você. 


eu que já te amo, minha promessa. 


bernardo guiduci,

26/05/2026



segunda-feira, 4 de maio de 2026

alguém

alguém que seja convicto da sua escolha por nós.

alguém que acompanhe minhas imaturidades com paciência, zelo e cuidado.

alguém com a pele macia, que goste de toque físico. alguém com quem eu possa ficar de mãos dadas.

alguém detalhista. que me perceba. que enxergue meus detalhes, que aprenda a ler as minhas ações para além do que eu digo. alguém que se conecte tanto comigo que a gente se entenda por olhar. alguém que saiba encontrar várias formas de nos conectarmos, um poliglota em be.

alguém que deixe a rotina leve.

alguém parceiro, que divida as responsabilidades de vida comigo, por exemplo os cuidados da casa. alguém que me ame por ações, que pense em mim tanto quanto pensa em si próprio. 

alguém que tenha interesse em aprender a me ler nas minhas flutuações de personalidade e acompanhar meus processos, que acolha minhas estações. 

alguém sensível, que goste de arte, que saiba dar importância pra subjetividade.

alguém que entenda o diálogo respeitoso como base de uma relação. que queira construir algo comigo, dizendo o que pensa e sente. alguém que gerencie bem as emoções, que lide bem com discussões.

alguém que esteja interessado em construir algo junto (muito difícil pra mim!).

que se conecte comigo de modo cotidiano. "que responda meu bom dia ao acordar".

alguém que aceite meus convites para entrar no meu mundo e interesses. 

alguém que ame sua família, que queira conhecer e amar a minha ainda que existam muitas dificuldades.

alguém que encontre um jeito de me atingir, de entrar na minha bolha particular, que saiba me alcançar quando eu me defender, com quem eu consiga ser eu mesma e me sinta confortável.

alguém que respeite meu ritmo, que seja cauteloso com os passos que dá. 

que respeite meu espaço, mas saiba quando me invadir. alguém que ão desista de nós, que vá atrás de mim quando eu fugir. 

alguém que conheça os meus medos, manias,  segredos e sonhos. 

alguém que conheça meus defeitos e não use eles contra mim. que use meus defeitos pra me amar através deles. que esteja ao meu lado quando eu errar e me apoie pra levantar. 

alguém que se deixe cuidar por mim. que queira contar comigo, que aceite meus presentes bobos, que queira ser mimado.

alguém que mesmo longe de certezas queira apostar em nós e ficar. 

quinta-feira, 16 de abril de 2026

dançando mo escuro

eu acho que sou tímida. tímido. tímide. em todas as minhas versões tem timidez. 

tenho pânico em ser correspondido. em estar no meio do caminho. em ser amada em voz alta, sabe? 

no fundo, eu gosto de pensar que alguém gosta de mim porque sou toda bobo da corte. porque eu construo um cenário, de flertes, loveboming e promessas, como que  perguntando por aí: será que você tanka me conhecer? 

e aí alguém diz que sim. 

e eu entro em profunda crise existencial. pânico. medo. ativa meu gatilho de desamor.

alguém pode apostar em mim? 

alguém pode investir em mim? 

acho que não conseguiria ter uma relação com alguém ainda. quando me oferecem esses lugares, me sinto profundamente infantil. 

eu fico procurando motivos pra quem está do meu lado estar me enganando. não tenho nada de especial, não tenho personalidade, sou desinteressante. por que alguém me corresponderia? me pergunto. e constantemenre me deparo com um desespero em ser correspondida. 

próximo tópico de análise, com certeza. 

se for pra ser, vai ser? 

não acho. 

acho que vou perder meu lugar pra alguém muito mais experiente. 

eu sinto que eu estrago tudo nessa parte. 

como superar o medo de me entregar? 

eu fico admirada quando alguém sai da superfície comigo. não tenho nada pra oferecer. nenhum interesse, perspectiva de vida. eu sou só essa farsa mediana e superficial. 

eu sei que não sou. quando estou sozinha comigo mesma, eu tô sempre num lugar muito sério e rígido. será que as pessoas me leem assim? é tão seguro meu espaço de bobo da corte.

quando um amor me convida para a conexão afetiva e sexual diretamente, fico tão admirada por existir esse tipo de interesse, que mal consigo sustentar uma interação. 

não sou nada leve. queria que alguém quisesse abrir, aí alguém quer abrir. 

não consigo acreditar. 

duvido do amor. 

faço o outro se sentir insuficiente. 

tenho um problema sério de auto estima, acho. 

gosto do jeito que me pinto, tão intelectual e moderno. mas não acredito nisso, me vejo tão fútil. 

mas depois eu vejo que o que acho mediano, é muito pra algumas pessoas. 

e que abrir mão da timidez é entrar de cabeça em um lugar que eu não sei pra onde vai. 

eu tô empacada. deveria achar alguém disposto a me acompanhar? ou isso é pedir muito? essa é uma jornada que tenho que fazer sozinho? 

gostaria de encontrar alguém paciente, que soubesse me cativar com cautela, me tirar do automático, fazer sentir que vale a pena investir. 

quando encontro pessoas que valem a pena, eu paraliso. 

será que vale a pena abrir esse tipo de gatilho com alguém que eu gosto muito? não sei se tem um caminho bom. não falar me deixa angustiado, querendo afastamento. falar me deixa exposto. 

sou tão tímido. 

quando você me olha e fala comigo através do movimento dos seus lábios, não suporto olhar. sou bobinha. queria tanto isso, mas será que você não está brincando comigo? 

terça-feira, 24 de março de 2026

cativa-me

depois de muito tempo, hoje eu senti vontade de escrever. voltando do trabalho, minha rua estava muito escura. a energia no bairro tinha caído. eu tive uma sensação engraçada: não era meu bairro. era sete além. senti medo. 

entrei em casa, completo breu. sem luz, sem internet. preparei uma prova com um texto sobre a evolução da eletricidade ontem, e hoje, breu. e grilinhos cantando. me sinto acolhida. amo o silêncio. abro a sacada, fumo um cigarro. a margot vem até mim e se aninha no meu colo. olho pro meu telhado, as bitucas de cigarro brilham. eu brilho por dentro. mas estou tão cansada. a margot treme nas minhas mãos. queria um colo como aquele que ofereci a ela.

hoje li o capítulo que o pequeno príncipe encontra a raposa. ele me afetou profundamente. as luzes se acendem num estouro, alarmes disparam. minha mãe entra o carro que deixei lá fora. e eu estou parada, observando tudo ao meu redor, me esvaziando.

eu caço galinhas, os homens me caçam. eu imploro: cativa-me. pra me cativar, você deve ir chegando cada vez mais perto quando me encontra. mas eu vou embora, diz o pequeno príncipe. e quando eu for embora? ele pergunta. tudo bem, eu digo. os campos de trigo não serão mais os mesmos. olho pras luzes, me lamento. a escuridão foi tão curta. queria ter ficado mais tempo escondida nela. agora estou novamente iluminada, mas o brilho é apenas externo. a luz de fora roubou a luz de dentro, que só podia brilhar no escuro. 

sempre apareço depois de serpentes niilistas. ensino sobre cativar e sobre liberdade. e depois chegam as despedidas. o que será que eu quero dizer? 

sinto falta de Deus, o grande irmão acolhedor que me alienava. agora que ele não existe mais, que eu reivindiquei o lugar dele, fica tudo mais pesado. raposas são animais astutos, mas a que encontra o pequeno príncipe é meio burra. a astúcia dela é só medo. 

imploro: cativa-me. mas não tem ninguém pra me cativar. eu sou minha própria Beatriz, me guiando pelos andares do inferno e do paraíso. 

acendo a luz da sala, vejo tudo tão bem que me dá náuseas. mas é claro que não vomito. nunca vomito. tiro o óculos. sinto falta de gente que me machucou. sinto uma grande onda de auto ódio. uma grande onda de tristeza. sinto uma vontade louca de transar bruto e depois dormir de conchinha. me sinto sozinha. sozinho. sinto falta do ber. olho pra minha parede, quero apagar as palavras, mas não me atrevo. palavras me machucam. 

sinto falta da infância, e me arrependo de não ter vivido direito. eu raramente me arrependo. estou vivendo bem agora. estou vivendo bem agora? 

não amo o grande irmão. não ponho nada no lugar de fantasia que um dia foi dele. eu só deixo escurecer, ainda que os cômodos estejam agora tão iluminados. procuro cavalos na paisagem da minha sacada, mas não estão lá. não os imagino. lembro daquele copo com gelo e água, em cima da mesa de plástico. é como meu coração. jamais serei fria o suficiente para sustentar o gelo, mas não abro mão dele. a água limpa minha mente. sinto uma lágrima escorrer no meu rosto. 

eu pensei que me mostrava, será que posso ser vista? 

cativa-me! 

mas se o fizer, não me deixe. por favor, não me deixe. 

terça-feira, 2 de dezembro de 2025

metas para 2026

"uma trança desfaz-se

calmamente as mãos 

soltam os fios 

inutilizam

o amorosamente tramado" 

Orides Fontela


estava relendo um texto que escrevi para meu relatório final da disciplina de estágio de lingua materna II, do curso de letras. gostei tanto dele, aliás, que postei por aqui. já tinha escrito um percurso profissional outras vezes, mas sinto que este foi o mais lúcido que já escrevi. obrigada, professora patrícia, por me provocar a refletir. 

a disciplina de estágio II foi uma das quatro disciplinas que eu cursei esse ano, que faltavam pra eu me formar. intuitivamente deixei ela pra fazer depois, pois sabia que seria mais penosa. tudo nesse ano foi penoso, porque eu realmente me propus a viver as palavras do ano: reparar, sustentar e investir. grande parte do ano eu gastei em sustentar, mas pra sustentar precisei olhar e me posicionar diante do que via. o investimento foi mais simbólico do que prático, entender e nomear o que gostaria de investir. 

eu escrevi esse texto pro relatório de estágio no dia 8 de novembro. é engraçadissima minha relação com o tempo, pois escrevi o texto de metas do ano passado um dia antes dessa data. normalmente, escrevo em novembro e isso me irrita um pouco porque eu me sinto mal por não esperar o ano acabar pra viver movimentos de finalização - não consigo nem esperar dezembro chegar! 

o tempo com certeza é um tópico que me atravessa nas minhas moções. este fato ficou bastante nítido quando me deparei com a palavra deste ano: acompanhar

o que é acompanhar se não gastar tempo ao lado de uma companhia? participando de seus processos, vendo crescer. 

eu acho que em 2026 vou acompanhar meus próprios processos e, dando atenção à eles, poderei oferecer espaços para outros que queiram minha companhia para a caminhada. 

acho também que será claro quem caminha comigo e em quem devo investir - o tempo agora é meu amigo, e quer me revelar esse tipo de coisa. 

a vontade de escrever meu texto de metas veio dia 8 de novembro. mas eu não o escrevi pois senti preguiça de pensar sobre o que eu gostaria de escrever. daí anotei para a Be do futuro poder acessar em outro momento menos preguiçosa.  

neste dia, além do texto sobre meu percurso profissional, fui convidada para um churrasco de família. em um domingo. churrascos de familia em domingos são o ápice da intimidade, me disseram. 

eis agora eu, a Be do futuro, descobrindo que eu já tinha um texto: um relatório de estágio e um churrasco. e domingos.

não era preguiça, Be, era intuição. eu achei que eu precisava de disposição pra escrever meu texto, que sabia alguns tópicos que queria que constassem nele, mas nao sabia desenvolvê-los. é que as palavras chegam depois das emoções. e, dessa vez as palavras já estavam todas lá, no meu texto, eu só precisava reparar. 

eu sou meio ruim em sustentar porque quando eu reparo eu me assusto muito. então, as vezes, eu só vou sustentando sem reparar até eu não conseguir não reparar ou não sustentar mais. 2025 me ensinou, porém, que eu posso praticar ir reparando aos pouquinhos. e daí sustentando (conscientemente), mais aos pouquinhos ainda. e investir? bom, essa parte eu ainda não sei lidar, ainda estou elaborando esse termo do meio, a tal da sustentação. ela roubou toda a cena do tripé - e eu achando que um ano seria suficiente pra percorrer três palavronas desse naipe. 

o meu texto para o relatório era meu texto de SUSTENTAÇÃO. nele já tinha tudo o que era importante ter, mas eu não conseguia ver. esse texto aqui é o meu texto de REPARO. em algum momento existirá um texto de INVESTIMENTO? não sei. talvez. aprendi esse ano a gostar muito do número três e a esperar os tempos que nele implicam.

percebo agora o quanto as palavras me ajudaram a abrir espaço no mundo pra existência do meu corpo. na minha história, as palavras estavam presas na experiência de contradição das mulheres da minha família com relação à educação. o espaço do professorado era de afirmação de estereótipos de gênero dominantes, o que permitia uma relação com as palavras sem que essa relação fosse colocada em foco para as normas da sociedade patriarcal neoliberal. isso sempre me machucou porque, apesar de um espaço, não era um espaço livre. mesmo assim era o que importava para minhas ansestrais, pois através das palavras e dos estereótipos de gênero é que elas puderam se expressar e existir como mulheres. mas pra mim isso não bastou... 

eu estava fadada ao engessamento das palavras. à essas palavras tão duras e sem movimento. mas, dentro de mim, havia um desejo genuíno... o de ser escritora. 

o que é uma escritora? é aquela que cria com as palavras. 

por muito tempo a psicanálise foi um espaço de palavras com significados vazios. de composição. em 2025 experimentei, pela primeira vez (com a ajuda de drogas KKK!!!), um espaço de palavras decompostas. e agora, nas últimas semanas, tenho tido a experiência das palavras como oferecimento de um contorno. 

a psicose, segundo colette soler, é o inconsciente à céu aberto. o que isso significa? que as palavras não significam, que elas imploram por significação, que a angústia não é contida pelas palavras. 

a significação custa. a castração, saber que algo me falta. 

quando eu escrevo meus agradecimentos naquele texto, eu ingênua e autenticamente nomeio cada um dos meus laços. vendo agora, contemplo com uma sutileza e sensibilidade tão grande minha escrita que copio ela aqui: 

"dedico esse texto à minha avó, aparecida, já falecida, matriarca da minha família, por não desparecer da minha história; à minha mãe, adriana, que decidiu que queria ser mãe, criou e sustentou para mim um espaço de amor de onde pude começar a caminhar na minha vivência como ser humano e mulher; para letícia e sabrina, mulheres que escolhi para serem minha família; para minhas amigas, vitória, gi, bia, marina, tamires, amanda, isa e glen, por serem espelhos onde eu posso me ver, trocar e me fortificar de modo tão cru e importante; para lua, que me deu a mão e me puxou do abismo; para ingrid e maria, que ao me afetarem com suas estruturas e modos de serem mulheres me apontam minha missão de vida; para as professoras que passaram por mim, tanto as que ocuparam um lugar de suposto saber quanto minhas colegas de profissão (até para a minha chefe com quem tenho tantas dificuldades de relacionamento, que continua sendo uma mulher que sobrevive e ocupa cargos que nossas ansestrais lutaram para que pudéssemos ocupar), como mulheres que me atravessaram com seus corpos e discursos, em especial para a professora patricia bedran, que com sua humanidade e jeitinho particular contribuiu tanto para minha formação.

dedico esse texto também ao meu pai, que ainda está aprendendo a sustentar o seu nome na nossa relação e ao meu avô, meu professor favorito". 

nesta dedicatória, eu vejo com clareza os lugares que escolho entregar aos meus laços. eu escolho reparar. e não me assusto. 

não tem porque eu seguir temendo (fóbicamente!) o que sinto. 

o que sinto é uma semente, que, como um ato falho, indica uma posição subjetiva. se vou regá-la ou não, é escolha minha. 

METAS PARA 2026 

pessoal 

viver mais, anotar menos. ou melhor: viver primeiro, anotar depois. 

me entregar nos meus projetos e relações. buscar mais qualidade que quantidade. 

valorizar e comemorar conquistas.

perguntar mais.

não me perder dentro de mim mesma; não me perder nas minhas relações. achar um meio termo entre meu espaço pessoal e o espaço dos outros. 

ousar reparar, escolher o que quero sustentar, investir ao invés de apenas reagir.

social 

acolher e abrir espaços de encontro com a minha família.

me abrir, com prudência, à relações que me atravessem. 

me conectar com novas mulheres.

comemorar datas significativas durante o ano, criando tradições.

organizar uma viagem por semestre (São Paulo, Minas, Punta del Este, ??).

Fazer minha própria festa de final de ano.

espiritual 

ser meu próprio apoio.  

me desvincular da culpa cristã.

saúde 

voltar pra academia 

voltar a andar de skate e a nadar 

fazer aulas de dança com a doroc  

comer mais saudável.  

lazer 

participar com mais frequência de atividades culturais: cinema, teatro, palestras, shows.

usar menos redes sociais.

ler pelo menos um livro de ficção por mês.

voltar a frequentar o clube do livro em espanhol.

financeiro 

organizar com clareza o dinheiro que entra e que sai.

planejar comprar um carro.

estudos 

retomar supervisão 

me preparar e prestar o DELE (até o meio do ano) 

fazer aula de conversação em inglês 

tentar ser aluna especial em uma disciplina do mestrado 

não perder de vista: pós na ESPE.

trabalho 

estar aberta a aprender e me reinventar na escola.

não esquecer que luto contra o projeto político neoliberal de sucateamento da educação e que o meu papel como professora é sustentar um espaço de desejo nos meus alunos e ampliar as fronteiras simbólicas (e quem sabe espaciais) deles.

aproveitar o encontro diário com meus alunos e pacientes.

ter mais pacientes. 

investir na psicanálise (descobrir como).

clube do livro mulheres.

oficina de literatura infantil e psicanálise.

GEPUL.

grupo de estudos em psicanálise.

oficina de práticas manuais para mulheres.

grupo de conversação em espanhol A1.

oficinas de literatura para adolescentes.

voltar a usar minhas habilidades musicais pra ganhar dinheiro? 

não perder de vista: trabalho com tradução free-lancer