há quase dois anos, publiquei um texto chamado "por amor as causas perdidas", em que falava sobre luto a partir de um poema. ele falava sobre como eu me sentia a respeito do rompimento do meu último relacionamento amoroso nomeado como namoro e também sobre como eu me sentia em relação à morte do meu avô.
eis o poema, retomado em agosto, a-gosto, de marina romero, poetisa do exílio espanhol:
no me sabe tu besar...
no me sabe tu besar
a sal ni a mar
que desvario!
que me sabe tu besar
a agua de rio!
no me sabe tu mirar
ni azul ni rojo
amarillo
el sabor de tus ojos,
y es el son de tu cantar
no me sabe tu besar
tu cantar ni tu mirar
a mareo em alta mar.
no meu texto antigo, eu discorri sobre uma posição que agora era ex, que não era mais aquela que eu ocupava e sobre o quanto me doía apenas perceber essa posição quando ela já não mais existia. hoje eu retomo o texto ainda para falar de dois lutos, e tentar, finalmente, encerrar os quatro.
em setembro de 2025, eu conheci um casal, sabrina e letícia. elas me adotaram como filha sáfica delas, no dia exato do início da primavera, dia em que, na minha fantasia neurótica, eu gostaria de me casar. fazia exatamente um ano que tinha rompido com o iuri e tinha vivido a morte do meu avô.
na manhã do dia 2 de janeiro de 2026, eu acordei cedo e me preparei para passar o dia com elas. tínhamos vivido um ano novo inesquecível. elas sairíam para almoçar e comemorar a própria relação, mas resolveram me convidar.
eu e sabrina estávamos encontrando dificuldade de acessar a linguagem uma da outra. apesar disso, eu e letícia estávamos nos comunicando bem. pouco antes de ir ao encontro delas, senti vontade de fazer um presente manual para sabrina. separei uma cartela de adesivos edição de colecionador de uma banda que gostávamos que eu carinhosamente guardava na minha caixa de memórias por anos e resolvi entregar pra ela. era uma pequena revista, então escrevi algumas músicas que me lembravam ela e coloquei entre as páginas. entre elas, havia, minha revolução, de diego gonzález, enigma, de iago o próprio e o poema de marina romero.
eu não sabia o que estava dizendo ainda, mas tinha muito a dizer.
me lembro de ter em mente que precisava chegar as 11h. eu sempre estava chegando atrasada nos nossos encontros e esse era um comportamento que desregulava o modo de se organizar de sabrina. neste dia, fiquei muito atenta a hora, para não me atrasar. eu estava quase me atrasando, mas precisava terminar o presente. consegui.
quando cheguei ao apartamento delas, quem desceu para me receber foi a sabrina. eram 11h05. eu disse: oi, desculpe o atraso. e ela disse: que atraso? eu disse: não era as 11h? ela disse: não, era as 11h30. você está adiantada. e eu fiquei absurdamente surpresa com aquele dado. eu tinha enganado meu próprio cérebro pra não chegar atrasada colocando na minha mente um horário mais cedo porque eu sabia que por mais que eu tentasse não me atrasar, provavelmente me atrasaria. essa é uma técnica que uso de forma consciente desde adolescente, e, dessa vez, tinha feito um movimento inconsciente. refleti, comigo mesma, em um sorrisinho bobo: eu amo a sabrina.
eu amo - e ainda é amo, pois meu amor não mudou -, a sabrina e a letícia com a mesma intensidade. o tamanho do meu amor é e sempre foi o mesmo. mas, para a sabrina, eu amava só a letícia. tive essa percepção enquanto subíamos no elevador. foi por isso que, naquele dia, eu quis fazer um presente pra ela. para demonstrar que o meu amor por ela existia e era tão grande e sólido como o meu amor pela letícia.
quando cheguei, letícia ainda estava se arrumando, então fiquei brincando com as cachorrinhas. nem percebi quando a sabrina abriu o presente. perguntei: você não vai abrir e ler? ela respondeu: já li. sempre cinco movimentos a frente, a sabrina, no nosso jogo de xadrez. mas não entendi nada, completou. você pode me explicar o poema.
a única coisa que eu soube dizer foi: eu te associo com o verbo saber, porque você gosta muito de saber das coisas. e, em espanhol, o verbo saber tem dois significados. o primeiro, é igual o português, conhecer. o segundo, é diferente, significa saborear. e esse poema brinca com isso. ela queria saber mais, como era esperado. mas eu não sabia entregar mais, então não entreguei. e fiquei me sentindo boba.
esse dia, foi um dos mais especiais da minha vida, como outros que vivi com sabrina e letícia. nós almoçamos no ariga, e eu pude provar uma culinária fantástica, que mudou radicalmente meu jeito de ver o mundo, pois letícia foi nomeando os sabores de todos os elementos que provávamos e que ela conseguia identificar e eu provei o prato favorito da sabrina; e fomos a um sebo que sabrina gostava, onde ganhei uma hq dela, do pequeno príncipe. ela que escolheu e me deu. era o último da coleção e falava sobre viagem no tempo. sou toda reversa e, temos em comum o interesse por obras que falem sobre viagens no tempo.
nossa relação, sem nome, terminou. a relação dela e da letícia, um namoro de quase quatro anos, também. eu e a não monogamia contribuímos bastante pra isso. esse é o luto de que falo agora. eis que, relendo meus textos do blog, me deparo novamente com o poema e resolvo pedir a ajuda do chat gpt para interpretá-lo.
segundo o chat, esse poema é muito interessante porque trabalha o amor e o desejo por meio de uma inversão do imaginário marítimo. chat apontou um dos meus maiores significantes como central, o mar. e continuou: em vez de o beijo, o olhar e o canto produzirem vertigem, profundidade ou embriaguez, eles são comparados a coisas que não conseguem produzir o efeito esperado. Há uma espécie de desencontro entre aquilo que o eu lírico espera sentir e aquilo que o outro efetivamente provoca.
essa definição me ajudou a entender minha dificuldade de comunicação com a sabrina. eu nunca tinha conhecido alguém como ela, por isso, não sabia o que esperar receber dela, e por isso, tinha medo de aprofundar nosso laço.
o beijo, no poema, não tinha gosto de mar, tinha gosto de rio. e o rio é apresentado pela palavra desvario, que é uma palavra do campo semântico da loucura. então, não só sabrina não estava no meu escopo marítimo como sua água existia para mim e era uma outra coisa: uma experiência de rio. segundo o chat: o mar é vasto e aparentemente sem direção; o rio, embora também possa ser enorme, é marcado por um curso, por margens, por um caminho. o beijo, portanto, não provoca a vertigem do alto-mar. ele conduz a um fluxo.
sabrina pega mãos quando ama alguém. e conduz. e ela fez isso comigo também, timidamente.
e então entram as cores.
o beijo também não tinha gosto de nenhuma cor.
cores para mim são muito importante, perpassam a forma como eu vejo o outro. e sabrina não emanava cor nenhuma, apesar de eu ver nuances de vermelho e verde nelas. mas eram cores diferentes das que eu estava acostumada.
além disso, o poema escolhe cores extremamente específicas: azul, vermelho e amarelo. o azul, era uma cor dolorida para sabrina e letícia, lembrava uma ex de sabrina. letícia tinha um azul intenso, mas ainda não conseguia ver, e sinto que consegui contribuir para ele de alguma forma. o vermelho, era como sabrina se apresentava e aparecia para mim, o verde, como ela se apresentava e aparecia para a letícia. e o amarelo? eu ainda não tinha uma persona amarela, quem me ofereceu foi o francisco, mas quem deu estrutura pra ela surgir foi a sabrina. mesmo assim, o beijo não era amarelo também.
a negação é um elemento que sempre aparece na minha análise. antes de eu assumir muitas coisas pra mim e poder criar uma síntese delas, elas aparecem em forma de negativa. exemplos clássicos: não binário, não monogâmico.
o não, também é o símbolo da castração. o não do pai é o que permite a entrada do sujeito na linguagem. o não poder, não acessar, o não saber.
e então entra o cantar
o beijo também não tem sabor do canto.
neste momento do poema, ele destoa da minha experiência com a sabrina. foi através do cantar dela que houve um sim, uma conexão, um investimento. foi aí que a triangulação de fato começou a ocorrer, pois o não desapareceu. ela cantou pra mim e me puxou pela mão.
o poema termina dizendo que o beijo não causou náusea, como esperado. causou o que, então? ele entregou o fluxo do rio. segundo o chat: o eu lírico parece procurar no outro aquilo que seria a experiência amorosa convencional: o mar, a vertigem, a embriaguez, o desvario. mas não encontra. o beijo não dá “mareo de alta mar”. ele dá água de rio. assim, talvez o poema esteja dizendo algo como: eu esperava me perder em você como quem se perde no mar, mas você não me oferece esse tipo de vertigem; você me oferece outra coisa, mais doce, mais terrestre, mais contínua. e isso também torna o título implícito do poema — se não houver um título além dos versos que você trouxe — quase uma questão sobre o que significa “saber” alguém. o verbo saber em espanhol significa “saber”, mas “me sabe” aqui é literalmente “tem gosto para mim”. o conhecimento do outro passa pelo paladar. ou seja: conhecer alguém é prová-lo.
aí o chat discorre sobre o desvario: isso aproxima o poema de uma tradição lírica em que amor e loucura se tocam. Mas o interessante é que a loucura aqui não vem necessariamente da intensidade. Ela vem da incapacidade de nomear a experiência.
O eu lírico sabe dizer o que o beijo não é:
não é sal,
não é mar,
não é azul,
não é vermelho,
não é amarelo,
não é mareio.
mas tem dificuldade de dizer exatamente o que ele é. a única definição positiva é: “agua de río”
então o poema inteiro pode ser entendido como uma tentativa de nomear uma experiência amorosa que escapa às categorias tradicionais.
o poema ainda conversa com o contexto do exílio espanhol, deixando ele mais forte. segundo o chat: há uma tensão muito produtiva entre pertencimento e deslocamento. o mar, nesse horizonte histórico, não é apenas uma paisagem romântica — pode carregar também a ideia de distância, separação, travessia e exílio. nesse sentido, escolher o rio em vez do mar pode adquirir uma ressonância ainda mais interessante: o rio também é deslocamento, mas é um deslocamento com curso, margens e continuidade. por isso, eu leria o poema menos como “o beijo não é suficientemente apaixonado” e mais como: o eu lírico esperava uma experiência de vertigem e encontra uma experiência de fluxo. o outro não é o alto-mar que faz perder o chão. e o rio que leva consigo.
sinto muita vontade de contar pra elas tudo o que descobri, mas não posso. já não temos um laço. isso tem a ver com o luto. quantas vezes não quis contar coisas pro iuri e pro meu avô e não pude? eu diria: sabe aquele poema que eu não sabia interpretar? agora eu sei! e é IN CRÍ VEL SABER! amo o sa ber, pois ele passou pelo não sa ber, como todas as minhas afirmativas passam pelas minhas negativas. te
sinto muita vontade de contar pra elas tudo o que descobri, mas não posso. já não temos um laço.
ainda assim...
levo comigo, sabrina.
também te levo comigo, letícia.
obrigado pela jornada.
"Às vezes eu tenho essa coisa de não saber saborear as coisas de primeira. As vezes elas passam por mim e eu nem me dou conta do quanto são importantes até que eu tenha perdido a chance de saboreá-las. E perco os significados que mais me alcançariam. Significados que mexem com meus sentidos: a visão, a audição, o olfato, o tato... e o paladar. Quando eu entendi do que a poeta falava, eu pensei: que sabores minhas guerras tiraram de mim?. Mas agora entendo que a pergunta é diferente da pergunta da Marina: que sabores eu nunca senti e gostaria? Às vezes eu perco a chance de saborear".