Hoje, retorno ao sabor de dois dos meus antigos laços. doces, mas que com a ausência se tornaram amargos. escrever sobre eles permitirá que eu retorne ao doce?
iuri tinha muito em comum com meu avô. ele era tranquilo e observador. vivia a vida no próprio ritmo. tinha interesses pessoais bem delimitados e seus próprios rituais. gostava de música e de arte num geral. gostava de saber das coisas. os dois me convidavam à profundidade, a companhia, e eu não conseguia aceitar o convite, apenas me sentava diante do mar que eram e, da areia, contemplava.
"Quando eu entendi do que a poeta falava, eu pensei: que sabores minhas guerras tiraram de mim? Mas agora entendo que a pergunta é diferente da pergunta da Marina: que sabores eu nunca senti e gostaria?"
Agora entendo que as duas perguntas faziam parte de um mesmo todo. Minhas guerras me deram traumas, assim como deram ao povo espanhol durante a guerra civil. me fizeram em pedaços. me vejo dentro do quadro de picasso, todo recordado e fragmentado. e esse trauma, em muitos momentos, me faziam ficar na areia ao invés de ir para o mar.
o eu lírico do poema era mais corajoso: se jogou ao mar. e, para sua surpresa, encontrou água de rio, um curso. não um lugar a se perder.
existem vários caminhos dentro de uma relação, não apenas o que leva a loucura. existe também um caminho que dá corpo. era esse que eu tinha mais medo de encontrar, mas, ao mesmo tempo, aquele que eu mais ansiava.
meu avô me deixava explorar suas portas fechadas, e eu não sei se havia pretensão em abrí-las. nosso laço era firmado nisso: eu gostava de olhar as portas de longe, ele não fazia questão de abrir e eu as sentia como portas abertas. mas não pude deixar de sentir que não o conhecia de verdade, quando ele morreu. havia tanto pra perguntar, tanto pra conhecer, tanto para saber. e eu nunca soube
iuri também mantinha as portas fechadas, mas, em determinado ponto de nossa relação, estava disposto a abrí-las. eu não conseguia enxergar nenhuma porta, muito menos que estavam fechadas. só sentia um grande afastamento e proteção. mas ele escolheu mediar. e mediar pra mim primeiro.
a sensação era de encantamento e medo. meu deus, quanta coisa eu tinha pra ver. meu deus, o que ia encontrar atrás de cada porta? meu deus existiam mundos, mil possibilidades que eu não estava acessando! eu conseguia acessar? eu podia acessar? aquele lugar era meu? tinha alguém me oferecendo aquele lugar?
'Ele quis que eu fosse a primeira pessoa pra quem ele mediaria'.
e o fato de que outras pessoas entrariam por aquelas portas, veriam o que ele queria me mostrar. e se eu gostasse muito? e se em algum momento ele resolvesse fechar? e se alguém fosse mais rápido pra ver, conseguisse ver melhor? e se eu não pudesse entregar um bonito olhar?
"Eu achei que essa seria a coisa mais especial que eu poderia receber dele naquele momento, pois gosto de me sentir a primeira. Como todas as outras que já visitei, a exposição tinha vários setores, cada um sobre uma obra e um artista. Ocupavam pouco espaço, e as explicações eram curtas. Estávamos envergonhados por aquela empreitada: ele se mostrando e eu o aplaudindo. Mesmo assim, conforme o Iuri me contava sobre algo que ele tinha aprendido, eu percebia que ouvir aquelas palavras não era me apropriar de um saber, mas abrir uma porta. Tipo no Monstros S.A. Cada setor da exposição era uma porta para um universo e eu ainda estava do lado de fora"
o iuri me machucou. ele não sabia muito bem como convidar pra entrar. tinham regras demais pra passar, de um lugar pra outro lugar. e eu não fui cuidadosa. tinha medo de errar, de machucar. não sabia lidar com tantos espaços, me faltavam palavras. "Quantas portas eu não abri?" por medo de não sustentar. Agora eu entendo porque me acostumei a te olhar como uma porta fechada. "Eu sinto tanto medo de abrir que chego a desejar que o ápice do meu encontro com você seja uma porta fechada, compondo uma pequena sessão na exposição da minha vida". E se suas portas forem tão impactantes que eu acabe me perdendo do pouco de mim que ainda tenho controle? "E se eu te beijar e eu sentir o sabor do sal, da água, do rio, do mar, das cores, do amor..." e outros sabores mais que eu nem sei nomear?
percebo que agora estou pronta pra sustentar. desejo abrir portas, encontrar um rio, um mar. não quero que o encaixe seja mais com a porta fechada, quero caminhar pela areia, sentir ela em contato com a minha pele, sentir a água chegando, sentir meu corpo sendo engolido pela água, e me ver nadando....
e minhas portas? quero que abram. quem quiser abrir, que abra. que veja, que contemple, que mude os móveis de lugar. e se der tudo errado, já diria cícero: "entra pra ver como você deixou o lugar e o tempo que levou pra arrumar aquela gaveta, entra pra ver, mas tira o sapato pra entrar, cuidado que eu mudei de lugar algumas certezas". eu quero alterar a dinâmica, quero repetir diferente.
e daí se demorar pra abrir a porta? voce ficará tempo suficiente? você quer saborear? ou você só quer saber? ainda preciso de tempo. mas talvez agora não pare só no tempo.
com meu avô, talvez as portas estivessem mesmo abertas. eu nunca vou saber. nunca vi. não quis perguntar. quis, mas tive medo. preferi a areia. não suportei a abertura. agora quero suportar. s(aber). ver a (aber)tura. entrar. morar.
que saiam de portas, vida. cores e sabores. e o que mais seja que eu nem imagine.
"Como encontrar isso em alguém de novo?" que eu me relacione com os buracos. que eu ache as portas, que eu queira abrí-las, que eu queria me molhar. desejo, desejo, aposto, aposto, amo, amo.
que essa ex-posição, se desfragmente. que se torne uma nova exposição. com seus riscos e belezas.
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