depois de muito tempo, hoje eu senti vontade de escrever. voltando do trabalho, minha rua estava muito escura. a energia no bairro tinha caído. eu tive uma sensação engraçada: não era meu bairro. era sete além. senti medo.
entrei em casa, completo breu. sem luz, sem internet. preparei uma prova com um texto sobre a evolução da eletricidade ontem, e hoje, breu. e grilinhos cantando. me sinto acolhida. amo o silêncio. abro a sacada, fumo um cigarro. a margot vem até mim e se aninha no meu colo. olho pro meu telhado, as bitucas de cigarro brilham. eu brilho por dentro. mas estou tão cansada. a margot treme nas minhas mãos. queria um colo como aquele que ofereci a ela.
hoje li o capítulo que o pequeno príncipe encontra a raposa. ele me afetou profundamente. as luzes se acendem num estouro, alarmes disparam. minha mãe entra o carro que deixei lá fora. e eu estou parada, observando tudo ao meu redor, me esvaziando.
eu caço galinhas, os homens me caçam. eu imploro: cativa-me. pra me cativar, você deve ir chegando cada vez mais perto quando me encontra. mas eu vou embora, diz o pequeno príncipe. e quando eu for embora? ele pergunta. tudo bem, eu digo. os campos de trigo não serão mais os mesmos. olho pras luzes, me lamento. a escuridão foi tão curta. queria ter ficado mais tempo escondida nela. agora estou novamente iluminada, mas o brilho é apenas externo. a luz de fora roubou a luz de dentro, que só podia brilhar no escuro.
sempre apareço depois de serpentes niilistas. ensino sobre cativar e sobre liberdade. e depois chegam as despedidas. o que será que eu quero dizer?
sinto falta de Deus, o grande irmão acolhedor que me alienava. agora que ele não existe mais, que eu reivindiquei o lugar dele, fica tudo mais pesado. raposas são animais astutos, mas a que encontra o pequeno príncipe é meio burra. a astúcia dela é só medo.
imploro: cativa-me. mas não tem ninguém pra me cativar. eu sou minha própria Beatriz, me guiando pelos andares do inferno e do paraíso.
acendo a luz da sala, vejo tudo tão bem que me dá náuseas. mas é claro que não vomito. nunca vomito. tiro o óculos. sinto falta de gente que me machucou. sinto uma grande onda de auto ódio. uma grande onda de tristeza. sinto uma vontade louca de transar bruto e depois dormir de conchinha. me sinto sozinha. sozinho. sinto falta do ber. olho pra minha parede, quero apagar as palavras, mas não me atrevo. palavras me machucam.
sinto falta da infância, e me arrependo de não ter vivido direito. eu raramente me arrependo. estou vivendo bem agora. estou vivendo bem agora?
não amo o grande irmão. não ponho nada no lugar de fantasia que um dia foi dele. eu só deixo escurecer, ainda que os cômodos estejam agora tão iluminados. procuro cavalos na paisagem da minha sacada, mas não estão lá. não os imagino. lembro daquele copo com gelo e água, em cima da mesa de plástico. é como meu coração. jamais serei fria o suficiente para sustentar o gelo, mas não abro mão dele. a água limpa minha mente. sinto uma lágrima escorrer no meu rosto.
eu pensei que me mostrava, será que posso ser vista?
cativa-me!
mas se o fizer, não me deixe. por favor, não me deixe.
Nenhum comentário:
Postar um comentário