em mania, me reaproximei de muitas pessoas do meu passado - assim como também conheci muitas pessoas novas. no meio de tantas reaproximações, uma das minhas amigas de infância decidiu fazer justamente o contrário: se afastar. segundo ela, nossa amizade não era profunda. ela não podia contar com nosso grupo quando precisava e não sentia nossa presença ao seu lado.
quando ela se afastou, senti uma profunda tristeza: como se eu tivesse perdido algo seguro. algo em que investi.
tentei ir atrás dela, mas ela estava profundamente fechada. como assim ela não queria mais minha amizade? me lembrei de um filme que assisti: os banshees de inisherin, sobre dois amigos que eram muito próximos. um dia, um deles decide que não quer mais essa amizade e, sem comunicar nada, se afasta. quando o outro amigo tenta entender o porque, ele o intima: cada vez que você vier falar comigo, irei cortar um de meus dedos. o conflito dramático se aprofunda quando nos é dito que o amigo que cortou relações é um musico apaixonado. ele toca violino e, se cortar seus dedos, não poderá mais tocar. vemos, um a um, seus dedos serem decepados a cada tentiva de aproximação do seu amigo.
toda vez que tenho uma negativa de alguém, me sinto muito atacado. não tinha parado pra perceber esse tipo de coisa antes, até me relacionar com mulheres e elas me odiarem e quererem ir embora. felizmente, com sabrina e letícia, aprendi que não é não - e não importa um motivo. se alguém não quer ficar, deve ir. a última coisa que quero é fazer uma pessoa cortar seus próprios dedos.
bom, eu deixei as coisas esfriarem com a bia, essa minha amiga, e fui atrás dela de novo, antes de aprender sobre não. o tempo fez alguma coisa por mim e ela deu abertura. trocamos muita ideia. muita mesmo. acho que nunca tínhamos trocado tanta ideia. e aí, conversando com ela eu entendi que nossas realidades agora eram completamente diferentes mesmo. e entendi uma dinâmica muito interessante minha: a de tamponamento da falta.
sou neurótica. apesar de duvidar disso constantemente, principalmente agora pelo lance dos delírios, sei que sou pois duvido de mim e das minhas narrativas e psicóticos não fazem isso. sempre fui vista pelos outros como uma pessoa bondosa, carismática e abundante. e, falando em análise sobre como essa visão é marcada socialmente nos meus aniversários, pois sempre acho um jeito de entregar algo de mim para o outro, descobri que, na verdade, entrego porque existir me angustia, e meu aniversário me lembra que eu existo e que por isso sou um poço de angustia. quando me deparo com uma angústia minha, eu gero um produto, normalmente artístico, para entregar ao outro. é como a casquinha de algo frito: uma emulação de um croc que, sem fritar, é só farinha solta e sem graça. então eu frito e eu ofereço pro outro um tamponamento de uma falta alheia quando não consigo lidar com as minhas próprias faltas. isso faz com que o olhar se desvie das minhas faltas para a ação de tamponar a falta do outro. ele come frito e eu como cru. profundamente neurótico.
me angustia muito a sensação de perda. estou começando a conseguir lidar com ela agora, mas tem sido difícil. foco sempre na falta, no que perco se perder e não no espaço que se abre para um movimento que me permitirá, muito provavelmente, ganhar outras coisas, espaços, momentos. quando bia se afastou, eu pude entender que, nos meus laços, meu medo de perder é tão gigante, que eu não consigo me aprofundar, pois, ao me aprofundar, tenho medo de encontrar questões que não conseguirei sustentar, por conta das minhas faltas, e perder o que já conquistei. e aí a relação vai se desgastando e desgastando até ficar insalubre.
não dá pra desviar das faltas.
faz pouco mais de duas semanas que estou namorando um homem. há pouco tempo atrás escrevi um texto chamado fechamento, mas a palavra que estava em meu coração era abertura. eu estava resistente. desde meu último relacionamento com um homem, eu achei que não me relacionaria mais com essa espécie de ser humano. por alguns meses de 2025, me considerei uma mulher lésbica. até reencontrar o francisco.
estudei com francisco quase toda minha infância. ele era o melhor amigo do meu melhor amigo. igual na musica do jquest, ele me achava meio esquisito e eu achava ele muito chato. mas a vida tem dessas. por algum motivo, a vida nos reaproximou.
como toda mulher, fui criada para buscar um marido. quando eu era cristã, um costume entre as mulheres da comunidade que eu fazia parte era o de fazer uma lista com características que buscava no parceiro ideal. a proposta era pensar sobre seus princípios e escrever em forma de lista uma oração, para que deus colocasse uma pessoa daquele jeito no seu caminho. eu já perdi as contas de quantas vezes eu fiz uma lista assim. aqui no blog mesmo tem inúmeras.
eu, e ouso dizer que a maioria das mulheres que era submetida a essa proposta, sempre pulava a parte dos princípios e só listava a parte do desejo. o que eu quero em um parceiro é.... bla bla bla... por muitos anos foi assim. isso acontece porque não somos ensinadas a olhar pra nossas faltas. o que falta em mim que o outro pode me ajudar a construir? o que falta em mim e por isso desejo?
o francisco é meu namorado porque foi a primeira pessoa, de tantas que eu gostei e comuniquei meu amor (e mais outras tantas que eu gostei e não comuniquei meu amor) que reinvindicou um nome para o nosso laço. ao fazer isso, reinvindicou percorrer comigo o caminho de me ajudar a olhar e sustentar minhas faltas.
o francisco é muito bom em se comunicar. ele é muito cru e direto e esse jeito me convida, muito intensamente, a me entregar, ainda que eu tenha medo de me mostrar e, com isso, mostrar minhas faltas, ser vista e perder. com ele, porém, essas percas, esses lutos, são ganhos. amar é faltar. amar é poder faltar. é perder, pra ganhar. é poder estar em dívida com o outro: dívida de melhorar como pessoa, dívida de respeitar e ser leal ao outro, dívida de crescer em maturidade e me tornar cada vez mais adulta.
o francisco tem me ensinado que minhas faltas direcionam meu olhar para aquilo que eu ainda posso aprender. e, nesse percurso, entender o que eu experimento e lugares que ocupo nomeando o que eu gosto ou não. junto com ele. pelo tempo que quisermos sustentar esse investimento.
bia me feriu porque ao invés de investir mais em mim (acho que não sabia como), apenas se retirou.
em mania, transgredi muito do que eu achava ser princípio pra mim. mas, na verdade, eram só um monte de palavras colocadas sobre mim. é só transgredindo regras que é possível construir princípios. algo de precioso ficou desta vivência: a culpa cristã não é culpa de desagradar uma entidade espiritual, é culpa de transgredir a castração que nos é imposta pela linguagem e, assim, extinguir nossa existência. mas a existência não pode ser extinguida pela transgressão, pelo contrário, ela é, muitas vezes, extinguida, pela completude da fantasia neurótica.
a lista, portanto, não existe. o que existe é uma abertura para construir.
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