Recentemente, tenho pensado em como as palavras se banalizaram pra mim por eu não saber fazer um bom uso delas. Sinto que, por vezes, elas me faltam e aí elas perdem o sentido de existência na minha enunciação. Na minha intimidade, quando as palavras faltam, é um alívio, pois o silêncio me deixa nu diante de mim mesmo. As vezes, me alieno em outros que falam através de telas, pois meu silêncio fala muito comigo, de modo cru, e às vezes, eu não quero ouvir o que ele tem pra falar - o que é uma grande besteira.
Ultimamente, tenho me perguntado, com frequência, como oferecer ao outro um silêncio cru que seja ponte, não muro. Não sei a resposta ainda e quero encontrá-la desesperadamente. Achei (e ainda acho uma vez ou outra), que eu deveria trabalhar na minha oratória e na fundamentação teórica dos meus posicionamentos e pensamentos, mas sinto que tem algo bastante relevante, que eu não sei o quê é, que me impede de fazer isso numa espécie de resistência rebelde.
Acho que na verdade eu sei do que se trata: é o discurso furado. As palavras sempre vão ser insuficientes pra explicar alguma coisa. é claro que isso não quer dizer que eu não deva realmente me movimentar para lapidar meu uso delas, mas tenho elaborado que talvez eu não consiga levar tão a sério a retórica, ainda que saiba da grande potência dela, porque eu sigo apostando em outros tipos de comunicação. E isso é tão abstrato e inexplicável, mas ao mesmo tempo tão eu, seja lá que nome tiver esse eu.
Em 2016 escrevi um textos sobre uma trilha de sóis - um texto muito chato, longo, prolixo, sem o menor senso de síntese, mas que quis ser escrito. Uma impressão de mundo que quis ser materializada em palavras.
Lembro que, naquele contexto, a palavra "sol" me afetava muito e eu gostava de como ela aparecia nas músicas que elenquei, muito mais do que qualquer construção metafórica que fiz. Atualmente, sinto que estou habitando uma cidade psíquica em que tudo é noite e que a escuridão domina todos os cantos dela.
Hoje, o sol resolveu me alcançar no meio da noite. Pelo psiquíco, mas também pelo material.
Eu dirigia por uma estrada limpa e infinita. A lua iluminava a terra. Eu conseguia ver umas sombras de árvores e placas através de sua luz. Essa mesma experiência se repetiu três vezes: dirigir à luz da lua. Acompanhado. E sozinho.
Eis que do infinito uma luz brilhante ameacou aparecer. Apenas seus raios se manifestaram. O que duraria poucos segundos, parecem segundos infinitos, tal qual aquela estrada. Os raios são luminosos, como a minha metamorfose sempre quis ser. Mas eu moro neles e não queria. Eu queria morar no sol.
Penso no quanto me angustia que a luz não chegue nunca, assim como minhas palavras não chegam às pessoas que eu amo. Penso na angustia de me contentar com raios de sol, os que saem de mim e os que me são oferecidos através da resistência.
Confiar é difícil, pois a traição dói. Mas é necessário para alcançar a lealdade. Consigo mesmo. Com o outro.
O farol finalmente surge e sua luz é muito forte, a ponto de quase me impedir de ver a estrada e os outros objetos. Ele é bruto, muito selvagem. Ele é minha nudez íntima no meu silêncio particular. Ele me rasga, e eu o odeio. Mas eu o desejo.
Eu gosto muito da estrada pouco iluminada, das sombras que a lua me permite ver com sua luz. Mas essa luz não é suficiente. Os raios luminosos não são suficientes. Eu sou sol. Quero brilhar.
O calor do sol é essencial para os seres humanos, mas só é suportável pois ficamos a uma distância segura dele. Caso contrário, morreríamos queimados. Eu sinto necessidade de expressar o calor que me consome e não quero mais guardá-lo por puro medo de ofuscar olhos despreparados ou de queimar quem chegue muito perto.
Como oferecer meu calor sem ofuscar? Sem ferir? É melhor uma personalidade opaca e insossa?
Anseio por matar e morrer no calor, por me consumir e me deixar ser consumido pelo outro, por expurgar virtudes e cultuar pecados.
Como me contentar com pouco?
Nenhum comentário:
Postar um comentário