sexta-feira, 8 de agosto de 2025

Carta aberta ao sol

Recentemente, tenho pensado em como as palavras se banalizaram pra mim por eu não saber fazer um bom uso delas. Sinto que, por vezes, elas me faltam e aí elas perdem o sentido de existência na minha enunciação. Na minha intimidade, quando as palavras faltam, é um alívio, pois o silêncio me deixa nu diante de mim mesmo. As vezes, me alieno em outros que falam através de telas, pois meu silêncio fala muito comigo, de modo cru, e às vezes, eu não quero ouvir o que ele tem pra falar - o que é uma grande besteira. 


Ultimamente, tenho me perguntado, com frequência, como oferecer ao outro um silêncio cru que seja ponte, não muro. Não sei a resposta ainda e quero encontrá-la desesperadamente. Achei (e ainda acho uma vez ou outra), que eu deveria trabalhar na minha oratória e na fundamentação teórica dos meus posicionamentos e pensamentos, mas sinto que tem algo bastante relevante, que eu não sei o quê é, que me impede de fazer isso numa espécie de resistência rebelde. 


Acho que na verdade eu sei do que se trata: é o discurso furado. As palavras sempre vão ser insuficientes pra explicar alguma coisa. é claro que isso não quer dizer que eu não deva realmente me movimentar para lapidar meu uso delas, mas tenho elaborado que talvez eu não consiga levar tão a sério a retórica, ainda que saiba da grande potência dela, porque eu sigo apostando em outros tipos de comunicação. E isso é tão abstrato e inexplicável, mas ao mesmo tempo tão eu, seja lá que nome tiver esse eu. 


Em 2016 escrevi um textos sobre uma trilha de sóis - um texto muito chato, longo, prolixo, sem o menor senso de síntese, mas que quis ser escrito. Uma impressão de mundo que quis ser materializada em palavras.


Lembro que, naquele contexto, a palavra "sol" me afetava muito e eu gostava de como ela aparecia nas músicas que elenquei, muito mais do que qualquer construção metafórica que fiz. Atualmente, sinto que estou habitando uma cidade psíquica em que tudo é noite e que a escuridão domina todos os cantos dela. 


Hoje, o sol resolveu me alcançar no meio da noite. Pelo psiquíco, mas também pelo material. 


Eu dirigia por uma estrada limpa e infinita. A lua iluminava a terra. Eu conseguia ver umas sombras de árvores e placas através de sua luz. Essa mesma experiência se repetiu três vezes: dirigir à luz da lua. Acompanhado. E sozinho. 


Eis que do infinito uma luz brilhante ameacou aparecer. Apenas seus raios se manifestaram. O que duraria poucos segundos, parecem segundos infinitos, tal qual aquela estrada. Os raios são luminosos, como a minha metamorfose sempre quis ser. Mas eu moro neles e não queria. Eu queria morar no sol. 


Penso no quanto me angustia que a luz não chegue nunca, assim como minhas palavras não chegam às pessoas que eu amo. Penso na angustia de me contentar com raios de sol, os que saem de mim e os que me são oferecidos através da resistência. 


Confiar é difícil, pois a traição dói. Mas é necessário para alcançar a lealdade. Consigo mesmo. Com o outro.


O farol finalmente surge e sua luz é muito forte, a ponto de quase me impedir de ver a estrada e os outros objetos. Ele é bruto, muito selvagem. Ele é minha nudez íntima no meu silêncio particular. Ele me rasga, e eu o odeio. Mas eu o desejo. 


Eu gosto muito da estrada pouco iluminada, das sombras que a lua me permite ver com sua luz. Mas essa luz não é suficiente. Os raios luminosos não são suficientes. Eu sou sol. Quero brilhar. 


O calor do sol é essencial para os seres humanos, mas só é suportável pois ficamos a uma distância segura dele. Caso contrário, morreríamos queimados. Eu sinto necessidade de expressar o calor que me consome e não quero mais guardá-lo por puro medo de ofuscar olhos despreparados ou de queimar quem chegue muito perto.


Como oferecer meu calor sem ofuscar? Sem ferir? É melhor uma personalidade opaca e insossa?


Anseio por matar e morrer no calor, por me consumir e me deixar ser consumido pelo outro, por expurgar virtudes e cultuar pecados. 


Como me contentar com pouco?

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