Esse é, sem dúvidas, o ano mais esquisito que eu já vivi. Depois de vários surtos e fases, percebo que finalmente me adaptei a situação posta. A ideia que me dá angústia não é mais a do isolamento, mas a de que as coisas voltem a ser como eram antes (mesmo sabendo que nunca irão). A sensação que eu tenho agora é de que o novo normal sempre existiu e eu estou muito bem nele. Não sei se estou ou estarei pronta em breve para uma rotina agitada ou convivência social. Não sei nem se é sobre conseguir, acho que é mais sobre querer. Depois que eu parei de me debater/contestar a situação (e consequentemente, as "situações"), eu percebi que estava perdendo a oportunidade incrível de olhar para mim. E de me validar, de responder de uma forma diferente. Então me posicionei frente ao auto conhecimento. O lugar da dor também é o lugar do crescimento, normalmente de onde a gente foge.
Esse ano, eu juntei as peças do meu quebra-cabeças. Entendi minha identidade por completo, não de maneira fragmentada. Uma identidade contraditória e muitas vezes difícil de olhar, mas que é minha e eu não posso continuar negando. Hoje eu entendo que não posso tentar ser algo que eu não sou. Não posso jogar minha história fora! Assumir e aceitar, aceitar e assumir - é como uma onda que vem e vai.. mas já não estou olhando de fora, eu entrei no mar e me tornei parte ele. Assumir minha identidade é viver a partir dela, expor para o mundo, deixar que me vejam, e eu só posso fazer isso quando me aceito, quando eu me exponho para mim e me vejo, como sou, sem tirar nem por. Aceitar minha identidade é olhar para dentro, e isso é um processo, que vai se afirmando em mim e nos outros, quando assumo quem eu sou.
Viver essa construção, ou melhor, desconstrução e reconstrução, tem me feito conseguir fazer escolhas - "colliere", de colheita. Eu fazia tudo, sem fazer nada, porque estava desesperada para encontrar minha identidade. Quem não tem identidade não sabe balancear o "sim" e o "não". Ou se perde em tudo o que assume, ou não assume nada. Quem tem identidade, apesar de poder se movimentar em vários contextos, sabe em qual estar. Quem encontra a identidade, não tem dificuldade de deixar ir todo o resto e ficar com o que é seu, porque sabe exatamente o que trás felicidade. Quem sabe o que é, sabe o que busca. Por isso a importância do ser antes do fazer. Quando o "ter" vem antes e define o "ser", qualquer chacoalhar da vida muda tudo de lugar. Mas se eu "sou", o tempo é meu aliado, porque a paisagem do caminho muda, mas eu continuo seguindo por ele.
Quem sou eu?
Sou filha amada, profeta, flecha que acerta o alvo. Concepções religiosas fundamentalistas não me pegam mais. Deus quer se relacionar comigo e qualquer coisa que precisar me dizer vai fazer através do nosso relacionamento. E ele faz, seguimos sarando o meu coração, juntos, com aquela pedagogia única dele com cada filh(o/a/e). Ele é o único que tem o direito de moldá-lo, de influênciá-lo, porque a identidade da criatura é firmada no criador. Quando entendi minha identidade, entendi que ninguém mais além de Deus pode dizer quem eu sou. Os rótulos caem por terra. Algo que nunca muda e nunca mudará é o amor dele por mim. Sinto que preciso buscar espaços de fé que me impulsionem para a minha identidade, e não que me fragmentem e me picotem ainda mais. Se não me acolhe por inteiro, não é um lugar onde eu devo estar.
Sou um ser que possui desejos, dotada de uma sexualidade rica e complexa. Relacionamentos abusivos não me pegam mais. Se eu não acolho meus desejos e não expresso para o outro, eu sumo. Uma relação não pode ter ninguém que some, precisa ter duas pessoas que existem. Se eu me apresento para o outro e ele não sente o desejo de ficar, tá tudo bem. A mudança é válida quando não toca na minha identidade, mas se toca, não dá. Por mais que exista amor, um amor profundo. Uma relação não é se torcer para caber no mundo de alguém, é consturir um espaço compartilhado, em que ambos se sintam bem para se movimentar, crescer, mudar, florir. Pode até não ser fácil, mas precisa ser leve. E eu finalmente entendi que ser leve é ser você, sentir conforto com sua identidade e sentir que o outro acolhe ela e decide amá-la. Eu tinha medo de me mostrar e assustar o outro e isso acabava atraindo gente assustável e intocável para mim, risos. E eu aceitava tudo o que vinha, já que eu não existia mesmo. Mas não agora. Se ainda quero conhecer alguém? Muito. Mas saber quem eu sou me ajudou a saber quem eu procuro (inclusive, essa era minha maior dificuldade no tinder, rs). E aprendi a não depositar minhas esperanças em qualquer pessoa, principalmente naquelas situações que claramente não estou de frente para uma pessoa que potencializa minha identidade (e aprendi também a não classificar isso por gênero, risos). Ainda é solitário, mas libertador. E pude perceber que ao me posicionar dessa forma, o tipo de pessoa que eu atraia, mudou.
Sou um ser que erra. O medo de fracassar não me pega mais. Quando todo esse tempo de isolamento social me lançou para meu abismo interior, eu também estava sendo lançada para o mercado de trabalho. E então eu tive que lidar com a crença de insuficiencia que me rondava há anos. Já carregava comigo uma grande necessidade de ser aceita, por não me sentir digna de amor. Mas, depois que saí do ensino médio, construí uma crença de que eu não era suficiente academicamente. Também afetivamente, mas a crença se potencializou no âmbito profissional, porque, no meu entendimento, era algo que eu tinha controle. Era desgastante trabalhar com estratégias compensatórias que dependiam dos outros como na crença de desamor, mas dependia apenas de mim combater minha crença de fracasso. Comecei a entender que tudo estava na minha cabeça quando me formei em uma das minhas faculdades e continuei me sentindo extremamente insuficiente e incapaz. Não importava o que eu conseguia, continuava me sentindo da mesma forma. Entender isso foi o primeiro passo.
Então passei um tempo durante esse ano procurando clientes, mas também com medo de errar, de não ser suficiente, de provar para mim que eu era incapaz. Também me envolvi em vários projetos, atirando para todos os lados em busca da minha identidade, e nenhum parecia dizer muito de mim. Mas Deus foi me mandando pessoas para trabalhar comigo, tanto clientes como amigos, e me questionando sobre a minha personalidade e perspectivas. "Como eu posso mostrar para ela que errar não significa fracassar? Como eu posso mostrar pra ela desobrir quem ela é implica em descobrir o que ela não e só rola tentando?" Eu realmente não sei como ele fez. Tenho errado muito com meus pacientes, muito mesmo. Acho que vivendo o momento ápice da minha carreira, a marcha 1 do carro sabe? Que não te leva muito longe, mas também não pode simplesmente não existir - o carro não sai direito quando começo pela marcha 2 kkkkk tenho experiência empírica de campo. Toda sessão eu penso: "errei muito nisso" "podia ter feito diferente" "não faço a menor ideia de como conduzir esse caso" e todos esses pensamentos me deixam profundamente triste. Mas não me fazem mais sentir fracasso, inutilidade, incapacidade. Porque eu sei quem eu sou e sei que sendo eu, posso alcançar as pessoas que chegam até mim - não é acaso. E sei que posso tentar até eu conseguir, tentar o meu melhor. Eu também tenho errado muito atirando para todos os lados, dando margem para todas as minhas ideias. Mas é só colocar no papel pra entender o que diz e o que não diz de mim, o que funciona o que não funciona. E esses erros não são erros, são tentativas que eu enfio na minha mochila de experiências.
Para mim, o que foi mais significativo nessa jornada do medo do fracasso foi olhar para trás e enxergar o que eu já tinha caminhado. Eu sempre olhei muito para o futuro, na expectativa de alcança-lo. Quando olhava para trás era para lamentar e não para contemplar. Antes eu me perguntava a direção da estrada, quais projetos investir e quais não, agora eu caminho desbravando, com outras perguntas. Antes me angustiava não ter pacientes, e agora eu tenho. E tenho novas angústias. Isso significa que a Ana Beatriz do futuro vai responder as perguntas e superar as angústias que tenho agora (mesmo que demore 5 anos como no arco da borboleta). Mesmo que no tempo dela. E que vai ter novas perguntas. E novas angústias. Eu confio mais em mim porque eu sei quem eu sou hoje e isso basta. E sei que quanto mais eu procurar, mais eu vou descobrir. Sou um poço de dúvidas e angústias. Mas, entre ser muitas coisas, eu também escolho ser a pessoa que se respeita e espera o tempo do próprio processo. Eu escolho ser apenas eu.
Perfeição é besteira, esteja disposto.
SET/2020
O ANO DA COLHEITA
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