terça-feira, 23 de junho de 2020

Ainda de quarentena

Tenho visto muitos casulos no meu jardim, um por vez. Um dia, vi uma borboleta tentando sair, com mta dificuldade. Mas não tive paciência nem peito de esperar o processo todo e larguei ela lá.

Eu acho que tive várias fases de isolamento social. Na primeira, pareciam férias prolongadas. Eu li, vi muitas séries, dormi, comi, conversei. Me isolei do mundo, parecia que nada mais importava. Estava realmente cansada e foi como se estivesse sendo consolada pelo universo. Quase um presente. Mas logo passou a ficar difícil me entreter. Então voltei à realidade e surtei um pouco. Comecei a perceber que pessoas morriam e eu não tinha muito o que fazer a respeito, que eu tinha conflitos internos com os quais eu não queria lidar que estavam quase que sambando na minha cara. Eu chorei copiosamente por uns dias. Um sentimento muito forte de angústia e medo me invadia com frequência. Sufoco, vazio, solidão. Muita coisa junto. Eu achava que ia ser devorada por mim mesma, pelo que saia de mim.
(enquanto escrevo, Jesus me lembra sua paixão, a dor que eu senti na sexta-feira Santa nesse ano, saindo do banho, como um presságio pelo que viria e pelo que foi). A última, a que estou agora, é a fase da rotina. Cansei de não fazer nada, voltei a pensar sobre sair do campo das ideias e montei uma rotina, a qual tenho tentado profundamente seguir.

Durante esse tempo, muitas coisas mudaram, só ficou o essencial. Mesmo que todos os dias pareçam um eterno domingo. É como uma criança do estágio ou uma árvore no meu caminho: o crescimento acontece, mesmo sem a gente perceber. Tenho tentado manter o status quo, porque não sei como enfrentarão minhas mudanças latentes. Não sei nem mesmo como eu enfrentarei. Tudo é muito incerto. Mas é difícil, porque sei que já não existo como antes.

Descobri que os muitos casulos que tenho visto no meu jardim são de uma borboleta só. Minha mãe que me contou. Eu achava que eram vários, porque sempre estavam em lugares diferentes, mas era um só. Há um tipo de borboleta que mora no casulo. Nem todas são feitas para voar.

Isso me fez pensar que nem sempre a nossa essência é o que achamos ser. A borboleta deixou de ser borboleta porque não voava? Não.

Talvez, e só talvez, Deus esteja me mostrando que preciso parar de esperar ser uma borboleta ideal e viver como borboleta que sou. Sendo aquela que voa ou a que permanece no casulo. Não importa. Apenas sendo, sem medo de errar, sem medo de construir minha própria jornada.

Amo a Deus, ele à mim. Isso definitivamente não muda. Então no fim, não importa. Eu verei a luz saindo da caverna, porque permanecerei ao seu lado. Mesmo indigna, mesmo o negando, mesmo não sendo o vaso perfeito que quebra ao receber o vinho novo. Escolhas à parte, eu me nego a sair da sua presença. 

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