sexta-feira, 20 de março de 2020

Quarentena

Às vezes, antes de dormir, eu penso: será que eu deveria voltar a escrever? E então os pensamentos ficam só na minha cabeça mesmo, porque de alguma forma, eu não consigo transformar eles em realidade. Aconteceu uma porrada de coisa nos últimos dias. Primeiro, eu saí do JS e houve toda uma repercussão emocional dentro de mim. Uma luta pra não voltar atrás nas minhas decisões e fechar ciclos - acho que nunca tinha feito algo do tipo por escolha própria, e, como no texto com a foto da Cristina Yang, ainda tem sido um aprendizado para mim não carregar o meu passado para onde eu vou, como se ainda fosse meu presente. Depois do baque, rolou a clínica e o estágio no colégio. Mas era como se houvesse ainda em mim um marasmo interior, como se nada realmente andasse. Eu ainda não tinha um CRP, o que impedia que eu tivesse um cartão e consequentemente, clientes. Então eu só usava a clínica pra estudar e conversar com a secretária de lá - e gastava grana a toa, acreditando em um futuro? O colégio, por mais que estivesse sendo, surpreendentemente, o lugar de trabalho ideal, em que fiz os amigos que tanto pedi pra Deus (Tamires é uma das minhas pessoas preferidas, sem dúvida), ainda me causava uma nostalgia estranha que não me trazia nada além de lembranças fragmentadas do espaço antigo, antes da reforma, ao mesmo tempo que me apresentava o colégio com um olhar diferente, distante, adulto. O mesmo marasmo: muita coisa acontecendo, mas nada acontecendo. Pelo menos a minha inclusão gostava de correr, o que fazia dos meus dias uma aventura. Comecei uma reeducação alimentar, andei comendo mais frutas. Tentei até ser vegetariana, o que durou umas 2 semanas, mas soja é muito ruim. Descobri uma piscina pública na minha cidade e me inscrevi na natação e, junto com meu atual interesse amoroso, que pela primeira vez na vida era real, descobri o quanto a água era mais parte da minha vida do que eu imaginava - e o quanto eu a amava muito mais do que a odiava. Se é pra falar da minha sexualidade, sim, ela gritou, mas dessa vez eu cedi ao invés de gritar mais alto e até agora não sei o que tô fazendo com os desdobramentos da minha vulnerabilidade (e a Renata, minha psicóloga, parece não saber também, o que não impede da gente estar adorando descobrir junto). Eu gosto mesmo de estar com a pessoa com quem estou. Se é que estamos, porque eu não sei o quanto ela está disposta a se relacionar comigo de verdade. Ela é complicada. Eu também sou, afinal. Só sei que até agora não dei indícios pra mim mesma de que pretendo fugir - um milagre, talvez?. Mas como nada com ela é certo, o marasmo me visita sempre que penso no que nós somos juntas. A tela do meu celular parou de vez e eu mandei pra assistência técnica da samsung em Jundiaí. Devia ter chego com uns três dias de tolerância, mas já faz duas semanas que eu não estou com ele. Talvez seja pelo caos do COVID-19, um vírus que colocou a galera do mundo todo em quarentena. Eu estaria deboassa se não fosse pelo fato de que toda minha rotina estava no meu celular. E o meu pré-diário. A rotina, eu refiz inteirinha na minha cabeça (porque aparentemente decorei tudinho de tanto que eu checava, assim como o caminho pra casa de um certo alguém que eu tenho muito visitado, o que significa que eu sou mais capaz do que penso ser), mas o pré-diário não. Meu CRP finalmente saiu, mas não posso fazer nada com ele, porque preciso estar em casa. Eu também não estou indo ao colégio. Então, eu finalmente tenho trabalhos legais, mas não posso ir trabalhar. Eu também não posso nadar, nem conversar com meus amigos, nem dar uns beijos, nem visitar meus avós. Nem. Nada. Timing é uma merda e meu novo ciclo de vida parece estar em descompasso com o tempo. A notícia boa é que me mudei de vez para o predinho e sinto que a cada dia que passa aquilo fica mais a minha cara. Estou trabalhando em organizar minhas tralhas - e as da minha mãe também - e me choca muito o quanto somos parecidas. Eu sou realmente muito artística e não é só o meu meio ou minha experiência. Eu faço coisas que ela também faz, que meu avô também faz, mas que ninguém explicou pra ninguém. Talvez eu tenha que repensar um pouco sobre meus princípios de experiência x heranças genéticas. Mas esse texto não é sobre nada disso, apesar de ser sobre tudo isso. Esse texto é sobre eu ter quase um quarto de século e, mesmo com quase duas graduações e coisas interessantes que estão por vir - e eu sei que estão, mesmo que tudo esteja nesse marasmo infernal -, a única coisa que eu consigo pensar é no quanto eu me sinto muito frustrada. Eu não tenho esse direito e por culpa da Melanie Klein, eu tenho trabalhado a gratidão sempre. Não é como se eu não estivesse feliz comigo mesma e não me sentisse bem com tudo o que tenho conquistado e vivido. Mas é como se tudo estivesse tão embaralhado... eu sinto que tenho as peças que preciso do meu quebra-cabeças, mas eu não consigo encaixar elas porque elas não parecem fazer parte do mesmo quebra-cabeças. Eu não enxergo o desenho e então não sei escolher qual junta com qual. O que falta? você me pergunta. Eu posso te responder imediatamente que não sei? Posso, mas não seria verdade. O que desembaralharia essa bagunça é o sentido da minha vida. Mas eu não consigo olhar pra ele sem me sentir muito mal pelo caminho que tenho trilhado até então. Olhar para o sentido me faz pensar que eu só passei todo esse tempo me distraindo, pelo simples medo de pensar sobre o que eu queria mesmo fazer e descobrir. E fracassar. Não ser constante, não ser boa o suficiente, não saber exatamente onde eu estou errando. E agora é mais angustiante ainda, porque o marasmo me faz ver que a ilusão já não me sacia. Eu já não acredito mais nela, não importa o que eu tenha que encarar. Tudo o que estava lá dentro, bem no fundo do baú, os sonhos, os anseios... tudo aquilo que eu achava que eu tinha que enterrar veio pra fora. Porque não dá pra ser feliz de verdade se eu vivo sob o efeito mágico e confortável da ilusão da ilha de lótus. Os adultos se preocupam com pandemias porque eles não tem quem se preocupe com eles. Isso me faz perceber que eu ainda não sou adulta e eu não entro em pânico porque eu tenho em quem confiar pra fazer o trabalho duro. Mas e quando chegar a minha vez de tomar a frente? Por que é que Deus não me deu posições que eu tanto queria? Será que era porque não confiava em mim? Ou porque nas coisas que me dava eu não podia ser firme e confiante, me relacionando com ele como uma adulta, como uma pessoa de fé madura?
Eu gosto muito de escrever. Quando eu era criança e me perguntavam o que eu ia ser quando eu crescesse, eu não dizia professora ou psicóloga. Também não dizia médica, empresária ou advogada - mesmo que houvesse algumas dessas expectativas sobre mim. Eu acabei escolhendo psicologia por conta da minha incrível terapeuta que caminha comigo há 10 anos, porque ela realmente foi uma figura emblemática e significativa pra mim. E a pedagogia veio da minha mãe, meu outro exemplo, que construiu o meu mundo em escolas e de dentro da educação. Mas minha resposta de criança não tinha a ver com nenhuma figura externa ou dinheiro e prestígio. Eu queria ser escritora.
"Tia, você quer ser professora né?" Cecília me perguntou, depois de me dizer que queria ser ginasta. Cecília é uma das minhas crianças preferidas no estágio, ela estuda na turma da minha inclusão e é apaixonada por slime. Apesar de muito tagarela, tem dificuldade de fazer amigos porque vive se mudando (mais ou menos igual ao João, risos). Aposto que teríamos sido amigas se a gente tivesse sido criança na mesma época.
A pergunta ecoa.
"Não" respondo. "Na verdade não. Eu estudo para ser professora, mas o que eu quero mesmo é escrever".

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