segunda-feira, 30 de março de 2020

#11 A decisão

Na manhã da partida, ele pôs o planeta em ordem. Não participamos, como leitores, do momento de decisão de partida do pequeno príncipe, apesar de sabermos que a situação gatilho dele estava perfeitamente ligada a sua relação com a Rosa (pela associação livre do último capítulo com esse). Mas, apenas com essa frase inicial, sabemos que não foi uma partida imediata: com a decisão tomada, veio todo um processo de preparo.
Revolveu os dois vulcões em atividade (era muito cômodo esquentar o almoço). Possuía um vulcão extinto. Mas como podia garantir? Se são bem revolvidos, evitam grandes erupções Partindo do princípio que o pequeno príncipe revela o eu interior do piloto, então em dado momento o piloto resolveu sair do seu pequeno mundo para desbravar outros mundos. Mas para poder receber o que iria encontrar em suas futuras relações e experiências, tinha que se despojar de muitas coisas.  Tinha que dar o passo de estar vazio e sentir o vazio para que pudesse então se preencher. Teve que deixar seus vulcões (movimentos interiores, desejos, pulsões de vida), seus baobás (seus sentimentos ruins, pulsões de morte) e a flor que amava (relações especiais, mesmo que apenas uma).
Os vulcões em especial me chamam bastante atenção. Primeiro, porque, ao passar o olho, ao invés de "revolveu", li a palavra "resolveu". Eu tenho muitos vulcões interiores esperando para serem olhados, revolvidos, resolvidos. Vulcões que estão ativos e os que não, coisas que eu já dei por resolvidas e as que ainda não - o pequeno príncipe visita tudo, só para se certificar. Se eu olho para meus movimentos interiores, eles vão acompanhando minha jornada e coexistindo comigo. Se não olho, entram em grandes erupções, me obrigando a olhar para eles (como um certo avião que caiu no meio do deserto). Tenho olhado para meus vulcões? O tempo deve ser amigo, não inimigo.
Ele julgava nunca mais voltar. Mas todos esses trabalhos familiares lhe pareceram, aquela manhã, extremamente doces. Sendo assim, o pequeno príncipe revisitou seu interior com ousadia e carinho. Me chama atenção a sua surpresa ao viver o processo de forma doce. Provavelmente esperava outros sentimentos, dos quais tinha medo, por isso apresentava uma postura defensiva. Mas não, a coragem de encarar o processo tinha tirado seu caráter assustador. Na verdade, tinha modificado toda a atmosfera, transformando o caos em calmaria, mesmo que cheio de incertezas. 
E, quando regou pela última vez a flor, e se dispunha a colocá-la sob a redoma, percebeu que estava com vontade de chorar. Ele sabia que precisava partir para sua busca, que não podia ficar como estava. Mas não significava que era uma escolha fácil, porque precisava deixar coisas que amava muito para trás para talvez ter um futuro com elas. 
"É preciso que eu suporte duas ou três larvas se quiser conhecer as borboletas". A flor deixa o orgulho de lado para a despedida, pois, por mais conturbada que fosse a relação de ambos, ela sentia a importância daquele momento para ele, e da separação iminente. Cai por terra o drama do cuidado: a flor finalmente revela que pode se cuidar sozinha - ou pelo menos se propõe a tentar. Caprichosa e orgulhosa, aquela flor, mesmo em sua vulnerabilidade. Mas, afinal, aprendendo a amar. Disposta a amar. É um momento de apoio à decisão do pequeno príncipe, mesmo que já tivesse sido tomada, depois de abdicar por tanto tempo sua autonomia por amor.

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