Feliz dia dos professores. Acordei umas 10h, fui ao velório da mãe do A.. Tava chovendo, um tempinho bem mórbido. Me perdi naquele lugar, super chique e confuso. O A. tava bem atordoado, com razão. Achei interessante porque aquele mecanismo dele de tentar ser sociável no momento mais vulnerável apareceu muito. E eu percebi que tinha alguém no mundo que me entendia em relação à isso.
Depois que falei
com ele, vi que a G. tava lá. Não foi um climão, o que eu achei o máximo
do máximo. Na verdade, eu fiquei muito feliz em ver ela??????? Estranho isso
né. Talvez eu tenha ficado um pouco sem saber
como cumprimentar, o que é muito meu mesmo, mas fora isso, foi super tranquilo.
De verdade. Tava uma outra amiga do A. lá, e elas ficaram conversando. O M. também tava, achei tão fofo da parte dele peitar todo o rolê nesse
momento difícil! <3
Fiquei quase
uma hora sentada, em silêncio, apenas ali. Aproveitei pra fazer o post de dia
dos professores pro insta, rs. Pesado demais né? Kkkkkk era o que tinha (e
graças a Deus que eu fiz ali, se não não ia fazer nunca mais). Daí umas 11h15,
11h20, a V. apareceu. Também percebi que ela não me odeia. Ah cara, meus
amigos são tão perdidos quanto que eu, como eu pude pensar por um só momento
que eu não fazia parte do grupo, ou que eles não gostavam de mim? Eles têm as
próprias questões e, às vezes, elas esbarram nas minhas. Mas é tão mais leve do
que eu achava...
Com a V.,
eu tive oportunidade de conversar. Ela me contou que tá quase se formando em
direito, lá na UFU, mas quer prestar psicologia. Também me mostrou a tatuagem
dela, um anjo fumando (ela fez questão de deixar isso muito claro) e eu mostrei as minhas. Ela disse o quanto ela e a P. são melhores amigas (pra mim é um dado esquisito, já que na minha cabeça era sempre a P. com a G.). Ela me contou que
brigou com toda a família dela, porque era lésbica. Fiquei ouvindo e só
sentindo aquela sensação engraçada de que não, eu não tinha perdido nada e de
que sim, eu continuava gostando daquelas pessoas exatamente como elas eram. E sim,
eles eram meus amigos, porque amigos estavam juntos nos momentos bons e ruins.
Consegui chegar
à tempo do grupo de estudos. Que bom, porque foi um dos melhores até hoje.
Tinha pouca gente, o R. tava claramente chateado porque as pessoas não
falavam, na verdade só ele falava. Ainda não me sinto muito confiante pra ficar falando, eu sempre me enrolo muito e as ideias ficam vindo todas juntas quando eu resolvo falar, mas mais pro fim eu falei. Eu senti que ele
ficou aliviado por eu ter falado. Era como se “nossa, o silêncio não era omissão, graças à deus, não tô falando pro nada”. Acho que eu quero tentar
assistir os grupos de estudo com a câmera ligada, mesmo que seja difícil pra mim.
Falamos do
bendito timming. Eu aprendi que não é só um presente, um dom. Timming é dar a
mão para o ego e fortalece-lo, reforçar os “bons esquemas”. Ainda não sei
exatamente quando falar algo, mas aprendi que quando as resistências se mostram,
quando to frente à frente ao super ego, definitivamente não é o momento. Quando
to lidando com muita resistência, o que eu tenho que interpretar é a resistência
– “percebo que toda vez que tocamos nesse assunto você reage dessa forma”. Dar
subsídio para o próprio paciente chegar lá. E apenas quando ele estiver
chegando, fazer algo à respeito.
Outro tema que
tocamos é a importância de peitar o que o outro trás, exatamente o que tem me
travado hoje, aquele lance de eu me mostrar distante que a T. pontuou. Sou
assim em todas as minhas relações, mas isso se mostra muito mais presente na
análise. Como eu vou pedir pra um paciente abrir a ferida pra mim e depois não
vou olhar pra ela? Freud fala que isso é covardia. Não posso fugir da bucha,
tenho que ficar lá com o paciente. Por que eu me esquivo tanto, então? E quando
eu não me esquivo, por que sou tão agressiva? Eu sou assim na vida também, tudo
que me tira da zona de conforto, se eu não desvio, eu lido com agressividade. Eu
não sei fazer diferente. Mas já notei que o outro não sou eu, que não posso ser
rígida assim com o outro, então fico nessa coisa de “não dizer o que penso
porque serei agressiva”. Será que não tem outras formas?
Ultimamente,
tenho percebido que eu também não mereço ser tratada com tanta agressividade e
rigidez. Até então, eu só tinha pensado sobre cuidado e carinho em relação ao
outro (porque se não ia ficar sem relação alguma), mas nunca em relação à mim. Será
que eu mereço toda a minha agressividade contra mim mesma?
Acho que não acreditava
que existisse esse meio termo. Não sei se acredito ainda, mas escolhi acreditar,
porque se não posso ser enterrada vivinha, rs, porque já morri. Só que eu não
faço a menor ideia de como alcançar ele.
A última coisa
que discutimos foi que quando somos analistas, nossa única função é analisar.
Não é resolver problemas e muito menos agradar os outros. Isso é uma coisa que
a gente vem conversando faz tempo, mas parece que não entra na minha cabeça. Agora
tá começando a entrar. Analisar, não agradar.
Almocei. A meta
depois do almoço era trabalhar na aula 6 do projeto Caminhos. Mas acabou que
rolou uma coisa super pesada.
Eu percebi que
tinha um passarinho tentando voar no meu jardim, mas que não conseguia nem a
pau. O pai tava tentando ajudar (ou não?), mas ele não conseguia. Esse tipo de
coisa acontece toda hora no meu jardim, mas eu nunca presto muita atenção. Na verdade,
eu escolho não ver. E ai hoje isso me incomodou. Eu peguei o passarinho e
comecei a tentar ajudar ele. E não dava de jeito nenhum. Ele ficava tentando e
tentando e não dava. E aquilo foi me matando, eu comecei a chorar que não parava
mais. Passarinhos nasceram para voar, mas aquele estava machucado demais pra
conseguir. Por dentro, por fora. Mesmo assim ele continuava tentando. Eu queria
muito que ele simplesmente voasse, mesmo percebendo que aquilo não ia acontecer.
Então eu percebi que eu era aquele passarinho. E meus pacientes tb.
Minha mãe
colocou ele no jardim, mas o pai tava tentando matar e eu não conseguia ver
aquilo acontecendo. Me subiu uma revolta muito grande – como que um pai tenta
matar o próprio filho? Então coloquei ele do meu lado, em uma caixinha e fiquei
assistindo ele morrer. Primeiro eu pensei que o problema era na patinha, tentei
amarrar com um barbante, mas depois vi que era mais que isso. Ele estava se afogando
no próprio sangue, eu acho. E assisti. Foi horrível, eu não conseguia parar de
chorar. Eu não podia fazer nada, e comecei a me sentir muito culpada por não
ter deixado o pai dele matar ele. Mas não era só essa culpa também, era a culpa
de literalmente não poder fazer nada. E além de culpa, eu senti uma angústia
muito grande também. Era a mesma sensação que eu sentia como analista. Que meus
pacientes estavam morrendo, eu tinha “tirado eles do mundo que tentava matar eles”
e trazido pra baixo das minhas asas, mas que eu não podia fazer nada – ou tudo o
que eu fazia não ajudava, eu só podia mesmo ficar assistindo.
Pensei em
Jesus. Ele foi esse passarinho. Por que na natureza, os pais podem matar os filhos
e os seres humanos não? Por que a eutanásia não é permitida? E por que Jesus
escolheu morrer assim, passar por esse processo? Por que a gente precisa do
processo, do sofrimento, de acompanhar cada etapa de frente? Não tem como ser
menos trágico?
Não acompanhei
até o final. Eu queria, mas tinha que fazer a live com a Amanda, no insta. Pensei
em levar ele comigo, mas decidi não levar. Senti muita culpa por abandonar ele.
Quando desci, ele tinha morrido. Tava todo retorcido. Eu não vi o fim, eu abandonei ele. Passei a mão pelo corpinho, ele tava duro. Foi horrível. Eu chorei mais ainda. E depois de um tempo, depois que eu parei de chorar, a tristeza mais pesada foi embora. A culpa, a angústia. Mas não passou totalmente, parece que lá no fundinho do meu ser tinha sobrado “um restinho”. Tipo uma dor de cabeça fininha, sabe? E por algum motivo, eu sabia que aquilo era uma cicatriz. Nunca ia passar. O jardim não é mais o mesmo, não é mais um cenário. Os passarinhos também não.
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