sexta-feira, 10 de julho de 2020

#13 Para os vaidosos, os outros homens são sempre admiradores

No segundo asteróide que o Pequeno Príncipe visitou, habitava um vaidoso.
O Pequeno Príncipe logo entendeu que, em planetas que moram vaidosos, a única maneira do outro existir é como público, que reforçará tal vaidade. Para os vaidosos, os outros homens são sempre admiradores. 
O chapéu era engraçado. Mas engraçado mesmo é sempre ter algo peculiar e destoante no vaidoso do que ele nos apresenta. Normalmente, o mesmo que chama atenção para à essência é também sua máscara. O chapéu era para agradecer? Ou para gritar a necessidade de ser olhado?
Bate às mãos uma na outra, ensinou o vaidoso. A admiração não deveria ser ensinada. Não assim. É triste e desgastante, para uma parte e para outra. É como se o vaidoso pensasse: "não posso ser admirado", porque ninguém o admira. "Mas quero muito que me admirem...", então ensina. O vaidoso se sente impotente quando olha para si, e precisa que o outro o enxergue diferente, o afirme. Mas sera que basta? Por que ele sempre sente que nenhuma admiração é suficiente, e quer mais e mais? Será que uma simples admiração genuína não valeria mais que toda essa construída? No fundo, é só o que ele deseja. Mas há um alto preço a ser pago. A emancipação quebra a dinâmica e leva à vulnerabilidade. E ele precisa da dinâmica. A cura, para ele, é o veneno que ele adora beber.
O que levaria à emancipação? A permissão para que o outro exista. A permissão de que o outro entre no planeta. Se ensino o que quero e como quero, não deixo o outro aprender com o que vê. A admiração não pode partir do admirado, nunca! É sempre um movimento do admirador... se sou eu quem coordena o movimento, de início o outro pode até entrar no jogo, mas uma hora cansa... uma hora cansa porque para de ser real. Uma relação precisa de protagonismo mútuo...
Quando o Pequeno Príncipe se cansou do movimento de mão única e tentou se pronunciar, o vaidoso não ouviu. Não se ouve quem não existe, afinal. Não se ouve quem quer derrubar a dinâmica.
Então o Pequeno Príncipe foi embora do planeta. E o vaidoso perdeu mais uma oportunidade de viver uma relação verdadeira

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