segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

Processos

Há alguns anos atrás, acho que talvez em 2016, Deus me inspirou a escrever músicas direcionadas ao meu futuro esposo. Eu não entendia muito bem a dimensão do que ele queria com isso, mas achava interessante como nasciam letras e melodias excêntricas e cheias de personalidade do meu coração. Elas diziam coisas sobre mim  que eu nunca imaginei ser capaz de escrever, que até me espantavam de tão verdadeiras. "Se você", uma dessas canções, talvez a primeira que eu consegui compartilhar com as pessoas nas redes sociais, tem sido via para Deus trabalhar comigo os meus processos mais profundos de cura interior. A partir dela, Deus me deu um novo olhar ao meu chamado, me mostrando que minha arte não é simples reflexo do meu coração, mas arma profética. Meu ministério é muito maior do que eu podia imaginar, não porque tenho uma missão árdua e pesada, mas porque escolhi me relacionar com ele e entender minha essência de criatura, que transborda o criador. Sou chamada a tocar, diariamente e na simplicidade, o sobrenatural, porque tenho uma alma voraz e insaciável. E o sobrenatural só pode ser tocado na medida em que eu potencializo o que é meu no que é dele, enraízo a minha identidade nele (e como é difícil alguém como eu aceitar o amor em sua gratuidade e não fugir para a ilha de lótus quando o vinho quer quebrar o odre velho!). É abraçando os processos que eu posso entender o todo (e como é difícil abraçar os meus processos sem desconfiar de todas as partes que eu não entendo porque ainda não vejo o fim). A palavra de 2017 foi espera, a de 2018 foi promessa e a de 2019, mudança. Eu pensei que tudo isso tinha a ver com meu desejo de encontrar alguém para me relacionar, alguém com quem eu pudesse dividir meus sonhos e planos e formar uma família. Mas a gente enxerga muito mal, às vezes. Depois de muita frustração quando senti que minha promessa não havia se cumprido no tempo que pensei que deveria e sentir decepção com minhas próprias expectativas e idealizações a respeito de Deus, me foi revelada a verdadeira promessa: "O que tu queres de mim? (...) Levanta-te e anda!". Então não tinha nada a ver com o amor da minha vida, constatei, chorando, preenchida pelo Espírito Santo. Ele era o grande "Eu sou". E eu precisava caminhar até ele por mim mesma para que construíssemos um relacionamento de igual para igual, sem afundar. Em 2017 eu estava como aquele paralítico, é verdade. Durante o processo ele me ajudou a entender como se caminhava. E então, agora, em 2020, quando todas as coisas se fizeram novas, apesar de não acreditar e de sentir muito medo, ele me dizia que não estava mais paralisada. Muito mais que caminhar, ele queria me ensinar a voar. Minhas asas, são teus braços abertos na cruz. Ok. Tudo bem. Entendido, aceito, entregue. Mas então ele vem, mistura as peças e muda o desenho do quebra-cabeças e resolve ministrar "Se você" no meu coração, a essa altura do campeonato, depois de anos. E então eu finalmente entendo: a promessa era o processo. De cura, de envio. O tempo de forjar o odre. E, no fim do processo, haverá a colheita. A colheita tem a ver com meu esposo, mas a promessa do processo tem a ver comigo. 
Os primeiros versos da canção "Se você" falam sobre minhas fobias, aparentemente muito banais para os leigos, e até cômicas. Eu cito elevador, mar e montanha-russa. O elevador representa toda a minha questão com compromisso e invasão, medo de perder o controle e me sentir presa. O mar representa todo meu medo do que é amplo e imenso, do que não consigo medir e minha repressão de sentimentos/desejos sempre jogados para baixo do tapete ao invés da minha elaboração e permissão de vivências - quando uma onda vem, ela só pode vir alta e forte, como um tsunami que invade e destrói tudo o que vê e toca. Por fim, a montanha-russa está relacionada a altura e todo o medo/desejo de independência, de ser incapaz de aprender a voar e cair. Nos primeiros versos também há uma alusão ao gosto do café, que sempre foi muito amargo para mim e representa toda a diversidade e contradição que há em mim, que me deixa maluca e que acaba por refletir no outro. Quando criei o blog, o nome dele era "Café com negresco", o que agora entendo como meu "par dialético", porque gosto muito da bolacha e nada de café, mas são alimentos que gosto de comer junto e, na minha opinião, se complementam perfeitamente.
De maneira geral, a música descreve a minha certeza de, um dia, encontrar uma relação em que todas essas minhas questões se tornem pequenas perto do meu amor. Isso é o de mais profético que existe nessa música, pois é abraçando o meu processo de cura e comunhão com Jesus (que envolve 110% de terapia, risos) que eu posso tocar meus impossíveis para chegar até meu futuro esposo, por quem eu doarei minha vida e terei os instrumentos necessários para amá-lo até o fim. 

- Triz

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